| Resenha | Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara

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Hanya Yanagihara

— Não quero lhe contar isso — começou, e olhou para a moita em toda a sua feiura despida e retorcida. — Mas preciso, porque… porque não quero ser falso com vocês. Mas, Harold… acho que vocês pensam que sou uma pessoa diferente de quem eu sou de verdade.
Hanya Yanagihara, Uma Vida Pequena, pág. 216

Falar de livros densos já é um desafio, em especial pela enorme quantidade de discussões que estes possibilitam. Agora imaginem quão desafiador é escrever sobre um livro denso, com mais de 700 páginas e que se propõe a contar a vida de quatro jovens, onde um desses é o grande responsável pela mudança na vida dos demais? Ainda não sei se a palavra adequada seria “mudança”, mas a escolhi por falta de outra melhor. Mas é este meu desafio de hoje: tentar mostrar pra vocês o quanto foi desafiador, prazeroso e triste realizar a leitura de Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara. De antemão, quero deixar claro que este texto girará em torno das minhas sensações relacionadas à leitura, pois assim como O Pintassilgo, de Donna Tartt, qualquer informação sobre os acontecimentos podem prejudicar a experiência de leitura de vocês.

Como mencionado, a história acompanha (toda) a vida de quatro jovens recém-formados e que agora tentam segui-la como adultos, assumindo suas contas, relacionamentos, dramas e todas as consequências de suas escolhas. São eles: Willem, um aspirante a ator, mas que, apesar de lindo e generoso, ganha a vida como garçom; Malcolm, um arquiteto frustrado, apesar do ótimo emprego numa empresa de renome; JB, um negro nascido no Brooklyn, artista plástico que tenta a todo custo o reconhecimento no mundo das artes; e Jude, o solitário, enigmático, extremamente inteligente e triste, além de ser o “centro gravitacional” do grupo. Pode parecer simples, ou apenas mero estereótipo — o belo, o rico, o negro e o deprimido —, mas Hanya consegue ir muito mais além ao explorar esses personagens tão complexos.

A Little Life illustration
Ilustração de Raffi Anderian (A Little Life)

Conhecemos esses personagens quando Willem e Jude estão procurando algum apartamento barato para alugar, pois estão falidos. Através de JB, os jovens conseguem alugar algo barato na Baixa Manhattan, na úmida e pouco movimentada Lispenard Street. A partir da mudança, a autora começa a apresentar quem são realmente esses personagens e como surgiram seus envolvimentos. É interessante que a autora inicia de forma bem despretensiosa falando sobre as dificuldades iniciais e crises existenciais dos quatro enquanto grupo e, quando nos damos conta, estamos completamente imersos na vida particular de um deles de forma específica. Apesar de Jude ser o eixo central dessa trama, sua vida é a que permanece em mistério por mais tempo, mas ainda assim conseguimos sentir uma espécie de confiança e admiração por ele.

Assim como na maioria das amizades, esse grupo não se configura apenas de solidariedade e amor pelo próximo. Existe aqui muito conflito e disputa entre eles, apesar do amor e respeito latentes, mas nada que os laços fortes de amizade não resolvam. Apesar de ter muito amor envolvido, quero deixar claro que a palavra que melhor define esse livro é LÁGRIMA😭! Esse grupo de amigos enfrenta muita coisa juntos, desde emoções até dores físicas — aqui menciono Jude e suas dores são tão intensas que o fazem paralisar. Assim, desde já preparo o leitor para lágrimas, muitas lágrimas. Quando você pensa que tudo ficará bem, a autora lhe joga uma bomba e você (leitor e/ou personagens) que aprendam a lidar com isso.

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Manhattan Bridge

É seguindo esse ritmo que a autora apresenta um a um, suas infâncias e traumas, seus sonhos e medos, dando uma linearidade cronológica à narrativa. Apesar de ter uma linearidade, a história provoca o interesse no leitor ao apresentar a vida desses personagens como ciclos que se formam e que vão se unindo num espaço maior para a formação de outros ciclos maiores, fazendo com que a “roda da vida” continue girando. Se você observar no sumário, o livro é dividido em sete partes — I. Lispenard Street, II. Pós-homem, III. Vaidades, IV. O Axioma da Igualdade, V. Os Anos Felizes, VI. Caro Camarada e VII. Lispenard Street — e estas partes são esses ciclos, que começam e terminam num mesmo ponto. Fico completamente emocionado ao pensar na complexidade que deve ter sido para a autora montar esse quebra-cabeça tão minimalista e ainda assim tão simples. A ligação de cada ciclo desses, os acontecimentos neles existentes, fazem com que essas 780 páginas pareçam 300 no quesito rapidez e 2.000 no que diz respeito a qualidade e riqueza de detalhes.

Apesar de esta ser uma das leituras mais lindas e tristes do ano, com toda a certeza, devo confessar que o número de páginas me incomodou um pouco. Não em termos de conteúdo, porque tudo parece estar no seu devido lugar, mas em termos práticos: ler um livro de mais de 780 páginas, pesado, não é moleza. Sem contar que é quase impossível ler um livro desse tamanho e não quebrar a lombada, mas fazer o que?! 😢. Mas, apesar do peso, a diagramação confortável, páginas amarelas e projeto gráfico estão de parabéns. Essa capa não me agrada muito, apesar de eu ter ficado com a mesma aparência ao finalizar essa leitura.

Boys in the Band, by Geoffrey Chadsey (2006)
Boys in the Band by Geoffrey Chadsey (2006)

Sobre a tradução, não consigo falar muito, porque não conheço o texto no original. Mas a tradução do título me incomodou um pouco — mas a editora ganhou pontos ao deixar o original pequenininho na capa. Não sei se vocês entendem de inglês, mas o adjetivo “Little” não é “pequeno”(a) e sim o diminutivo da palavra descrita, então no português seria “Uma Vidinha”, sugerindo uma espécie de demonstração de afeto ou sentimentalismo. No entanto, reconheço que esse título “adequado” não chame tanta atenção quanto o escolhido pela editora. São só detalhes que tenho prestado mais atenção após iniciar minha graduação em Letras/Inglês.

Por fim, gostaria de dizer que não se assustem com as quase 800 páginas. Este é um livro que vale muito a pena ler. Reconheço que teria aproveitado mais e me emocionado mais se tivesse vivido melhor a leitura, sem os prazos exigidos pela editora. Mas ainda assim foi uma excelente experiência. Quem sabe daqui uns 10 anos eu não esteja recuperado o suficiente para uma releitura?

Boas leituras! E não deixem de comentar!

Nota: 💚💚💚💚💚

Ficha Técnica

Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara
Clique para ampliar

Título: Uma Vida Pequena
Título Original: A Little Life
Autor(a): Hanya Yanagihara
Tradução: Roberto Muggiati
Editora: Record
Edição: 2016 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2015
Páginas: 784
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Leia um Trecho: AQUI
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