| Resenha | A Fábrica de Robôs, de Karel Tchápek

A Fábrica de Robôs

HELENA: Então pensei… se eles fossem como nós, se eles nos entendessem, não poderiam nos odiar. Se eles fossem só um pouco humanos!
DOMIN: Ai é que está o erro, Helena! Ninguém pode detestar mais o homem do que outro homem! Transforme pedras em seres humanos e eles nos matarão a pedradas! Continue!
Karel Tchápek, A Fábrica de Robôs, p. 102.

Os robôs são figuras cativas da ficção científica. Sejam eles grandes máquinas automatizadas para realizar uma única tarefa, robôs multifuncionais ou até mesmo robôs cuja aparência não seja fácil de distinguir da de um ser humano. Como amante da ficção científica, já faz algum tempo que eu queria ler este livro. Mais especificamente, desde que eu li As Cavernas de Aço, de Isaac Asimov, onde na introdução ele atribui a origem do termo robô a esta peça teatral escrita 1920 por Karel Tchápek (ou Karel Čapek).

Ao ler a peça, é impressionante perceber a capacidade visionária que teve Tchápek ao escrever um roteiro tão crítico e original. Inspirado pelos medos do homem no período pós-Revolução Industrial e de grande tensão política com o fim da Primeira Guerra Mundial, ao qual se soma a evolução da ciência que foi capaz de dá ao homem o poder da destruição em massa, Tchápek acertou em cheio com A Fábrica de Robôs. O termo robô vem da palavra tcheca robota, que significa “servidão; trabalho forçado”. Na peça, os robôs surgem como o resultado de um experimento de um cientista inglês, Rossum, e com o papel de substituir o homem nos trabalhos manuais e de esforço físico, permitindo ao homem desfrutar do ócio a seu bel-prazer.

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Cena da peça R.U.R., mostrando três robôs, de 1921

A peça começa com uma cena de abertura e em seguida é dividida em três atos. Na abertura, acompanhamos Helena Glory em uma visita à fábrica de robôs. A cena se apresenta como um longo diálogo entre Helena e Harry Domin, o diretor da fábrica, onde ele explica a ela (e ao público) sobre o surgimento dos robôs, o que eles representam para a humanidade (na visão da fábrica), para contragosto de Helena que acredita num ideal de humanização dos robôs. Ela é contra o fato de eles serem tratados como escravos dos humanos. Por outro lado, Domin tenta fazê-la entender que eles são apenas máquinas criadas pelo homem com o propósito de servi-lo. Decidida a ir embora, Helena é detida pelos homens da fábrica: Domin (o diretor), o engenheiro Fabry, Dr. Gall, Dr. Hallemeier, o Cônsul Busman e o Engenheiro Civil Alquist.

O primeiro ato se inicia 10 anos após a cena mostrada na abertura. Helena está morando na fábrica, que se localiza numa ilha, junto com o time de homens responsáveis pela produção em massa (e ininterrupta) dos robôs. Ao longo dos três atos, vemos que a produção exacerbada dos robôs e um fator específico que modificou sua produção fizeram com que os robôs tomassem o controle e se colocassem num patamar acima dos humanos. A criação do homem se revolta contra o seu criador, seguindo um modelo a la Frankenstein. A peça segue uma visão pessimista, de que o homem será destruído pela própria estupidez que lhe é intrínseca. Essa visão frankensteiniana dos robôs é algo que Asimov tentou subverter na ficção científica que ele produziu ao longo de sua carreira como escritor do gênero.

Karel Capek / Photo / c.1930
Karel Capek / Photo / c.1930 (c) Britannica ImageQuest

Para Asimov, os robôs podem ser útil aos humanos e podem ser controlados por eles, embora não negue que eles possam ser um problema de uma forma ou de outra. A ideia da máquina substituindo o homem em seu labor também está presente em Asimov, o que ele não concordava era essa natureza destruidora e má (pautada num conceito religioso de bem e mal, ou que todo ser que não possui uma alma é cruel) dos robôs. Daí surgem as três leis da robótica, que regem os robôs dos livros asimovianos. E por falar em religião, a peça de Tchápek segue um viés de diálogo muito próximo desse sobre bem e mal, fazendo alguns paralelos e referências à Bíblia cristã. Quando a humanidade perece, é preciso que surja um novo Adão e uma nova Eva, para que tragam esperança à raça humana.

Os robôs de Tchápek se aproximam muito mais dos androides de Philip K. Dick em sua surpreendente proximidade e semelhança aos humanos. O criador dá origem a uma criatura à sua imagem e semelhança, até mesmo capaz de se tornar superior. E assim como os androides assassinos de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, o que falta nos robôs de Tchápek é a empatia para com os vivos. Mas o que é estar vivo? Para eles, os seres humanos são apenas versões ultrapassadas deles próprios.

A leitura d’A Fábrica de Robôs é essencial para qualquer leitor e fã de ficção científica, especialmente os que gostam Asimov e Dick. Infelizmente este é um texto pouco conhecido por aqui, muitos fãs do gênero sequer sabiam da disponibilidade dele em português, já que por muito tempo esteve inédito no nosso idioma. Mas a edição da Hedra é bem cuidada (também disponível em edição de bolso), com tradução direta e com uma introdução muito rica, assinada por Aleksandar Jovanović, sobre o autor e sua importância para a literatura universal, assim como para a ficção científica. Vale muito, muito a pena ler.

Nota: 💚💚💚💚💚

Ficha Técnica

a-fabrica-de-robos
Clique para ampliar

Título: A Fábrica de Robôs
Título Original: R.U.R. Rossumoví Univerzální Roboti
Autor(a): Karel Tchápek
Tradução: Vera Machac
Editora: Hedra
Edição: 2012 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1920
Páginas: 148
Skoob: Adicione
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4 comments

    • Oi Paulo, tudo bem?
      Obrigado pelo comentário e pelo aviso, e já conhecia essa edição, mas infelizmente ela não está mais disponível por aqui.
      A propósito, dei uma olhada no seu blog e gostei bastante, vou acompanhar. Parabéns pelo trabalho.

      Abraços

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      • Obrigado pelas suas palavras.
        Vou também acompanhar o seu blog.
        O livro que referi aparece com alguma frequência em alfarrabistas (sebos) ou sites de venda online. O preço é que não costuma ser simpático.
        Abraços

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