| Resenha | O Americano Tranquilo, de Graham Greene

icp 868INDOCHINA. Laos. Luang Prabang. May 1954.
Indochina. Laos. Luang Prabang. May 1954. © Robert Capa

Estar apaixonado é ver-se a si mesmo como alguma outra pessoa o vê, é estar apaixonado pela imagem falsa e exaltada de si próprio. Apaixonados, somos incapazes de honra — o ato corajoso nada mais é que desempenhar um papel para um público de dois.
Graham Greene, O Americano Tranquilo, p. 135.

Meu primeiro contato com Graham Greene foi inesquecível. Greene é um autor que sempre esteve presente na minha lista de leituras, mas que nunca dei a devida atenção. Até que comecei a cursar Letras-Inglês e me vi impulsionado a conhecer mais da literatura americana e inglesa (assim como de outros países anglófonos). Nosso primeiro contato se deu de forma indireta de duas formas: primeiro através de uma lista de autores essenciais que meu orientador me passou logo no primeiro período do curso; e segundo, através da leitura do livro O Pintor de Letreiros, de R. K. Narayan. Este é um autor indiano, de expressão em língua inglesa, que foi apadrinhado e apresentado ao mundo por Greene. O fato de eu ter gostado muito de um acabou me levando à leitura do outro que, por sua vez, me agradou ainda mais.

Greene foi um escritor prolífico e publicou mais de sessenta romances. Tinha como profissão o jornalismo, além de ter sido espião do serviço secreto britânico, que acabou permitindo que ele viajasse por vários países. Suas viagens, experiências e vivências foram as principais fontes para seus romances. Longe de ser sua obra prima (título atribuído à obra O Terceiro Homem), O Homem Tranquilo é, sem dúvidas, um exemplo da excelência de Greene como escritor. Numa mistura de elementos contrastantes, o autor desenha uma história de um triângulo amoroso em um pano de fundo desolador que é o da Guerra da Indochina (1946-1954).

The Quiet American 01
Phuong (Do Thi Hai Yen) e Fowler (Michael Caine) em cena do filme O Americano Tranquilo (2002)

A trama é narrada pelo protagonista Thomas Fowler, um correspondente de guerra inglês que está estabelecido em Saigon com a missão de cobrir o conflito na Indochina. Fowler é um cético completo, calejado pelas dores que já viu e viveu. Sua única alegria em meio ao caos em que vive é a jovem vietnamita Phuong, de quem é amante. No período em que está situado na Indochina, Fowler conhece e se torna amigo de Alden Pyle, um jovem americano. Pyle é um idealista que carrega em seu discurso a vivacidade de quem acredita poder mudar o mundo baseado no que postularam os estudiosos sociopolíticos. No livro, ele segue os ensinamentos do escritor fictício York Harding, que escreveu sobre os problemas em torno do conflito na Indochina. O idealismo de Pyle sobre um mundo melhor é o primeiro ponto de contraste com o ceticismo de Fowler. Aos poucos, outros pontos veem à tona: a inocência do americano versus a experiência do inglês, a juventude versus o envelhecimento, o amor versus a guerra, entre tantos outros temas que se contrastam ou se relacionam, ou até mesmo se apresentam por si só.

A amizade de Fowler e Pyle, além da disparidade de opiniões entre os dois, se vê diante de mais um conflito: o americano está se apaixonando e flertando com a vietnamita, que por sua vez, namora o inglês. Como disse, acompanhamos todo o drama sob o ponto de vista de Fowler, logo passamos a ser cúmplices de suas próprias neuroses. O dilema maior de Fowler está no fato de ele ainda ser casado, pelo menos legalmente. Seu primeiro casamento fracassou, mas sua ex-mulher nunca lhe concedeu o divórcio como uma forma de vingança pessoal. Phuong sonha em se casar, mas não pode fazê-lo com um homem já casado. A irmã de Phuong, que tenta a todo custo lhe arranjar um bom pretendente, vê em Pyle a saída perfeita. Assim, Fowler fica em desvantagem tanto pela negativa de sua esposa em lhe dar o divórcio como pela irmã de Phuong que planeja casá-la com o americano, bem melhor de condições do que o jornalista inglês.

Cenas do filme O Americano Tranquilo (The Quiet American, 2002)

Vocês conseguem imaginar a situação de Fowler? O protagonista não é isento de falhas, ele mesmo tem consciência de suas desvantagens, dos seus erros e do seu egoísmo. Mas aí é que está… Fowler é humano, suas falhas são parte intrínseca do que somos enquanto humanos. Greene cria um personagem crível, que embora seja vivido e experiente, fraqueja como todo mundo diante das dúvidas. Não importa quantos relacionamentos você teve, um novo relacionamento sempre será uma experiência nova e diferente, com seus problemas e dilemas únicos, dos quais muito pouco lhe servirão os anteriores. Fowler não pode se voltar contra seu amigo, se sua amada o quiser, assim como não pode impedir que Phuong o deixe se essa for sua escolha. Como se manter inerte em meio a esse impasse que de um lado fere a amizade e do outro o relacionamento amoroso? Como lidar com isso em meio a uma guerra colonialista? Fowler perceberá que tanto na sua vida pessoal como na Guerra é difícil se manter imparcial, uma bomba lhe atingirá ainda se você estiver em cima do muro.

Uma bomba de duzentas libras não discrimina ninguém. Quantos coronéis mortos justificam a morte de uma criança ou de um condutor de riquixá quando uma frente democrática nacional está em construção? (p. 198)

O livro já foi adaptado duas vezes para o cinema: a primeira em 1958, com direção de Joseph L. Mankiewicz, e a segunda em 2002, com direção de Phillip Noyce e com Michael Caine, Brendan Fraser e Do Thi Hai Yen no elenco principal. Greene teve a oportunidade de ver a primeira versão, da qual não gostou por achar que a mensagem anti-guerra do livro foi suprimida em detrimento de um caráter propagandista dos Estados Unidos. Além disso, na primeira versão, Phuong é interpretada por uma italiana, embora a personagem seja vietnamita. A versão de 2002 se apresenta mais fiel à obra e sua mensagem, ainda que deva ao livro muito de sua poesia.

Para além de uma história triste e bonita ao mesmo tempo, O Americano Tranquilo é a comprovação de que Greene era, acima de tudo, um artesão de palavras, além de grande conhecedor do homem. Cada frase do livro é um soco no estômago. Greene faz poesia em prosa, com uma habilidade ímpar de nos prender à narrativa e aos personagens. Cada uma de suas frases de efeito faz parecer que estamos diante de verdades universais sobre o que é ser humano. A narrativa do livro não é linear, primeiro o autor nos coloca diante do grande conflito da trama e em seguida vai tecendo os fatos que conduziram os personagens até ali. Difícil não se emocionar, mais difícil ainda não se encantar com a escrita de Greene. Depois deste, fiquei querendo ler tudo o mais do autor. Vale muito a pena. Leiam e comentem o que acharam (precisei de um abraço após a leitura). 😭😭😭

Nota: 💚💚💚💚💚 + ❤

Trailer do filme O Americano Tranquilo (2002)

Ficha Técnica

oamericanotranquilo
Clique para ampliar

Título: O Americano Tranquilo
Título Original: The Quiet American
Autor(a): Graham Greene
Tradução: Cássio de Arantes Leite
Editora: Biblioteca Azul
Edição: 2016 (2ª)
Ano da obra / Copyright: 1955
Páginas: 240
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