| Resenha | A Ilha de Bowen, de César Mallorquí

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Qualquer autor que se proponha a escrever um livro e coloca logo na epígrafe, em letras garrafais, preenchendo completamente a página, um lindíssimo trecho de Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne, tem merecidamente meu respeito. É amigos… César Mallorquí fez exatamente isso! Como eu poderia não amar? O autor também assumiu ter tido bastante influência das obras de H. G. Wells e do estilo de Sir Arthur Conan Doyle para compor sua ficção científica. E eis que temos um livro infantojuvenil interessante sobre uma ilha misteriosa.

Obviamente não pude deixar de notar que Mallorquí é fã, assim como eu, dos livros do senhor Verne e aqui ele nos brinda com uma instigante aventura a bordo do pseudo-navio Saint Michel. Adianto que referências são o que não faltam nesta obra ambientada no começo do século passado. A trama segue o misterioso sumiço do arqueólogo inglês Sir John Foggart e a procura do mesmo por sua esposa Lady Elizabeth, a filha Katherine e os espanhóis Ulisses Zarco, Adrián Cairo e Samuel Durango, ou Durazno, como Zarco costuma chamá-lo. E é apenas isso que vocês precisam saber da trama para embarcarem nessa jornada eletrizante. Vou deixar todos os mistérios e o que a trama apresenta para que se deliciem durante a narrativa.

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Preciso comentar que em meio a esta incrível aventura repleta de mistério e de alguns vilões interessantes, mesmo que sorrateiros, conhecemos as mais variadas personalidades entre os vários personagens da trama. Apesar do machismo exacerbado de Zarco, gosto do seu jeito de comandar as expedições. O professor é rabugento e mandão, mas no fundo tem um bom coração e quando Lady Elizabeth o convence a participar da busca por seu marido, os dois entram em uma “pequena guerra”, já que o mesmo vai se surpreendendo aos poucos com as habilidades de Lisa e, mesmo subestimando-a, mostra-se companheiro quando necessário. Lady Elizabeth, ou Lisa, é uma mulher decidida e disposta a confrontar o que for necessário para alcançar seus objetivos. Ela tem um incrível poder de persuasão, inteligência, esperteza, habilidade com diversas línguas e conhecimentos sobre os mais variados assuntos, como química e biologia, por exemplo. Assim também é a filha de Lisa, Katherine ou Kathy, que por sempre acompanhar os pais em suas jornadas, adquiriu certos conhecimentos e muita coragem.

O mistério é muito bem amarrado e as situações são divertidas e instigantes. O livro possui certas pinceladas de steampunk, o que me animou bastante, tendo em vista que sou fã incondicional desse estilo literário — inspirado por Jules Verne, homenageado em diversas instâncias do livro. Mas devo fazer algumas ressalvas: o protagonista é um pseudo-protagonista. Samuel Durango não é tão grandioso quanto Zarco ou Lady Elizabeth, mas desde o início me pareceu que ele seria o centro das atenções e este só aparece de vez em quando. Uma coisa notável na estrutura da narrativa é que a cada final de capítulo, pelo menos na maioria deles, há um pequeno trecho do diário pessoal de Samuel, contando sobre experiências do seu passado. Isso geralmente ocorria quando ele nem aparecia no capítulo em questão, mas estava lá e o leitor precisava saber disso.

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Outra ressalva é o fato de que certas coisas aconteceram de forma quase previsível e acelerada, principalmente os primeiros capítulos quando Lady Elizabeth tenta convencer Zarco a embarcar na jornada em busca de seu marido. Não sei se fazia parte do jogo de cintura do personagem se fazer de difícil ou se aquilo era um furo, o que não ficou muito claro.

A narrativa de Mallorquí é permeada de boas ideias e descrições interessantes. Não é um livro completamente fluído, mas também não é chato em momento algum. Temos descrições ricas em detalhes, mas nem um pouco desnecessárias; temos diálogos muito bem construídos aliados a personagens também muito bem construídas junto de suas excelentes personalidades (também muito bem construídas hahaha). O autor conclui seu livro de forma incrível, tendo um clímax arrebatador e repleto de sintonia para com toda a trama. A diagramação é valiosa e tenta uma fonte agradável aos olhos, ao mesmo tempo que todas as ilustrações casam perfeitamente com as páginas. A capa minimalista é um outro atrativo interessante.

Em suma, A Ilha de Bowen nos traz uma aventura repleta de diversos acontecimentos marcantes; confinamento de pessoas a bordo de um pequeno navio; perseguições, mistérios e muitos conflitos interessantes. A cada página, uma nova descoberta. A cada nova descoberta, temos mais vontade de não largar o livro. E o feito de Mallorquí para com seus leitores é incrível. Entretenimento garantido e boas horas se deliciando com uma boa prosa e um bom enredo.

Nota: 💚💚💚💚💛

Ficha Técnica

a-ilha-de-bowenTítulo: A Ilha de Bowen
Título Original: La Isla de Bowen
Autor(a): César Mallorquí
Tradução: Catarina Meloni
Editora: Biruta
Edição: 2014 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 524
Skoob: Adicione
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Autor Convidado

Matheus Benjamin é roteirista, escritor, crítico de cinema e cineasta nas horas vagas. Dirigiu e roteirizou os filmes A-Ma-La e Senhor Linux e sua Incrível Barba e produziu o curta Alice., atualmente trabalha como produtor do primeiro longa-metragem LGBT do norte do Paraná.


Nota

Resenha publicada originalmente no extinto blog UMO, reproduzida aqui em parceria e com autorização do autor.

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