| Crítica | Julieta (Idem, 2016)

Julieta (almodóvar e atrizes)

A dor é a protagonista do novo filme de Pedro Almodóvar. Com Julieta, o diretor espanhol transparece seu amadurecimento e inaugura uma nova fase na carreira, repleta de controvérsias, mas de inegável talento. Em uma das entrevistas para divulgação do filme — que, aliás, teve a atenção dividida com a polêmica em torno da citação de seu nome no caso Panamá Papers, em um país já escandalizado pela corrupção —, Almodóvar conta que Julieta é fruto do seu próprio envelhecimento e da solidão que viveu nos últimos anos: “jamais o teria feito antes”, disse.

Em Julieta, sai a extravagância e a ousadia que lhe são características e surge a ruminação, amargura e o silêncio. Na verdade, alguns dos elementos que fizeram Almodóvar ser o que é continuam em Julieta, mas são acessórios, detalhes que talvez não sejam mais o foco do novo Almodóvar. A liberdade sexual e as questões de gênero, por exemplo, deixam de ser temas principais e passam a ser integrados na realidade de uma Espanha moderna.

Julieta (cena 01)

Almodóvar escolheu para iniciar essa sua nova fase as histórias de Alice Munro, a vencedora do prêmio Nobel de Literatura em 2013, mais um indício do amadurecimento do diretor. Quem assistiu filmes como Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, Kika e O que fiz para merecer isto? pode julgar inimaginável ver personagens almodovianos sem os maneirismos e irreverência tão presentes em suas mais de 20 obras.

A personagem Julieta é uma mãe amargurada e infeliz pelo abandono de sua única filha. O filme começa com um encontro inesperado da personagem com uma amiga, que lhe faz buscar respostas sobre seu passado. A partir disso, vemos por meio de flashbacks o desenrolar da trama.  Almodóvar volta a trabalhar o universo feminino, mas sem a força e a subversão de antes, para ceder lugar a uma ternura e complacência nada comum na sua cinematografia.

Julieta (cena 02)

Se Almodóvar deixou de lado a transgressão, que talvez não faça mais sentido em sua realidade artística, já não se pode dizer o mesmo do seu tom crítico, muito embora em Julieta a religião seja criticada mais sutilmente do que em Má Educação, por exemplo.  Se não aborda questões de costumes, o diretor trata de perto os sentimentos íntimos, os impasses dos relacionamentos humanos, especialmente da relação tão forte entre mãe e filha.

Dos contos enxutos de Alice Munro em Fugitiva (Globo Livros), Almodóvar extraiu seu filme mais sombrio, mas com ele o espectador sempre tem um afago, que em Julieta é seu final, que pode ser frustrante para alguns ou um ar de esperança para os demais. Se os sentimentos contidos, a dor e solidão continuarão no universo almodoviano é esperar para conferir. Na mesma coletiva, o espanhol revelou que está trabalhando em dois roteiros, um drama e o outro uma comédia: “vamos ver qual eu termino primeiro”.

Trailer

Ficha Técnica

julieta (poster)Título: Julieta
Título original: Julieta
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar e Alice Munro
Elenco: Adriana Ugarte, Inma Cuesta e Michelle Jenner
Gênero: Drama
Origem: Espanha
Duração: 99 minutos
Classificação: 14 anos

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