| Resenha | Batman: A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland

“Quando o homem começar a se aniquilar, e as bombas caírem sem parar… e, de seu filho, o rosto pálido você vir, a melhor coisa a fazer é SORRIIIIR!”
(Coringa, A Piada Mortal, p. 31)

O riso descontrolado é um refúgio dos desesperados, ou como dizia o novelista e poeta Victor Hugo: “o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e o riso constante é insano”. Por esse motivo, a “risada maléfica” tornou-se uma das marcas distintivas da insanidade dos vilões no universo da ficção. Tanto nos quadrinhos, quanto no cinema, a gargalhada bufante é um forte indício de loucura, sadismo e megalomania de um supervilão.

Não é à toa, por isso, que o dono da risada mais icônica e assustadora dos quadrinhos seja considerado o mais insano de todos, o Coringa, ou Joker, no original, eterno tormento do Batman. É justamente esse supervilão que eleva a virtude do herói condenado a combatê-lo.

Esse fascínio exercido pela personalidade excêntrica e ação anti-humana do Coringa é o que promoveu a HQ Batman: A Piada Mortal, tornando-a a edição mais famosa e controversa das histórias do Batman.

Lançada originalmente em 1988, pela DC Comics nos EUA, A Piada Mortal trouxe elementos decisivos para a história de todas as personagens do universo de Batman envolvidas naquela edição. A maior revelação de todas, a origem do Coringa, imaginada pelo grande roteirista de histórias em quadrinhos, Alan Moore, causou um grande impacto nos fãs da história, dividindo opiniões.

batman versus coringa a piada mortal

Ele apresenta um Coringa humano, um simples comediante que largou o emprego num laboratório de Química para tentar uma carreira no meio cômico, e ainda tinha que sustentar uma esposa amável, que estava grávida do primeiro filho do casal. Entretanto, um dia ruim foi o que causou toda a ruína de sua vida.

Penso que o mais chocante dessa versão é simplesmente mostrar a natureza humana anterior do Coringa. É fácil conhecermos a origem dos heróis, acompanharmos a jornada de ascensão por meio da qual nos identificamos; uma pessoa comum, que depois de chegar ao fundo do poço, só pode dar a volta por cima em grande estilo e se tornar um ser dotado de virtudes e altruísmo.

Entretanto, o oposto é realmente um soco no estômago da nossa ilusão de mundo feliz. Quando sabemos que o Coringa foi um ser humano que chegou ao fundo do poço e decidiu cavar ainda mais fundo e atirar-se num abismo de alienação aos problemas do mundo, descobrimos o lado pessimista da existência.

É isso o que a Piada Mortal nos mostra, a degeneração do humano pela decepção com a vida e com a própria humanidade, assim, o Coringa é resultado de uma existência de decepções e frustrações represadas.

No posfácio dessa nova edição lançada vinte anos depois, o quadrinista responsável pela arte, Brian Bolland, manifesta sua resistência em aceitar essa versão criada pelo Alan Moore como a história original do Coringa, preferindo acreditar que esta é apenas uma das várias versões inventadas pelo próprio vilão.

Joker mad coringa louco batman a piada mortal

Outro detalhe relevante dessa história é a intervenção do Coringa no destino de Bárbara Gordon, filha do Comissário Gordon e Batgirl (o que não é explorado nessa HQ). O Palhaço do Crime castiga a filha do Comissário para infligir dor a este e, consequentemente, ao Batman, promovendo uma das cenas mais sangrentas causadas pelo Joker.

Por meio dessa ação violenta, o Coringa quer provar que o bem não vale a pena e o crime compensa. Tudo o que um “cidadão de bem” precisa para perder a razão é de um dia ruim. O mérito dessa HQ é mostrar o grau de consciência do vilão de suas cruéis atitudes e da impossibilidade de realização e felicidade humana. O resultado disso são alguns dos diálogos e aforismos mais incríveis do Coringa:

“Assim, quando você estiver dentro de um desagradável trem de recordações, seguindo pra lugares do seu passado onde o risco é insuportável… Lembre-se da LOUCURA. Loucura é a saída de emergência!” (Coringa, p. 28)

Uma sacada muito empolgante dessa narrativa é a fusão de duas histórias em épocas distintas, a trama do presente da obra, cujo centro gira em torno do sequestro e tortura do Comissário Gordon, apresentada em cores, e a trama do passado do Coringa, revelando sua origem e o primeiro encontro com o Batman, em tons de sépia.

O desfecho é realmente ambíguo, você tem que ler pra crer! para tirar suas próprias conclusões e se convencer de que esta HQ encerra um ciclo que é alarmado desde o início da história, ou não. E paro por aqui, para deixar que o próprio leitor experimente essa percepção durante a leitura.

Coringa a piada mortal comissario gordon

Por fim, um aviso para quem não gosta de spoiler: eu sugiro que a leitura do prefácio escrito por Tim Sale seja feita depois da leitura da história em quadrinhos, porque mesmo que ele não revele de modo explícito o enredo, ele dá umas pistas que podem deixar o leitor de sobreaviso, como: vai ter uma revelação importante na página X, um evento trágico na página Y!

Se você for uma pessoa encucada (como eu! rs), vai ficar de olho nas páginas temendo que o Joker salte do livro no seu pescoço ao virar a próxima página! (E pior que ele salta!😯  )

Brincadeiras à parte, essa história é sublime por tantos motivos diferentes, que me alonguei mais do que pretendia, pois é ao mesmo tempo simples e enigmática, fruto da junção do excelente trabalho de dois grandes realizadores da 9ª arte. À primeira leitura pode parecer mais curta do que você esperava, mas no maturar das ideias, pode causar uma impressão que se perde no tempo.

Além dessa obra-prima dos quadrinhos, a edição mais recente de A Piada Mortal lançada pela Panini traz textos extras sobre os criadores e mais duas histórias do Batman. Confira a seguir minha opinião sobre essas outras histórias:

Sujeito Inocente, de Brian Bolland

Essa é uma história em quadrinhos escrita e ilustrada inteiramente por Brian Bolland, o ilustrador e idealizador de A Piada Mortal. É uma narrativa perturbadora, com um clima sombrio adequado ao universo de Batman e à cidade deteriorada de Gotham.

A trama é narrada por um cidadão comum de Gotham City, que leva uma vida ordinária, sem nenhuma prática irregular ou condenável. Ele trata bem seus pais, tem um relacionamento estável com a namorada e vai à igreja todos os domingos, porém ele quer saber se é realmente inclinado para o bem. E por esse motivo, ele decide, ao menos uma vez na vida, cometer um crime horrível, matar o Batman.

A narração segue com a imaginação desse sujeito comum visualizando a prática e as consequências de seu crime. Esta é, na minha opinião, a melhor das três histórias dessa HQ, ela tem a capacidade de tragar o leitor para a narrativa de modo a permitir aquela experiência mágica de suspensão da realidade, quando você mergulha numa história e toma as dores das personagens daquele universo, vivenciando de fato os acontecimentos fictícios.

Toda a história tem uma clima bastante sombrio, a própria arte é muito rica, com uma influência surrealista, ou seja, hipnótica para sonhadores! rs Vale muito a pena conferir!

Batman e Robin, de Bob Kane

A última história que compõe essa edição de luxo de A Piada Mortal é Batman e Robin, o menino prodígio (1940), de Bob Kane, o criador do Homem Morcego e do Príncipe Palhaço do Crime, ao lado de outros cocriadores (Bill Finger e Jerry Robinson).

Essa história é célebre por conter a primeira aparição do Coringa, que se tornou a partir de então o maior antagonista do Batman. É muito interessante notar a poderosa conexão entre o herói e o vilão desde esse primeiro encontro.

O Coringa surge como um ser profundamente extravagante e assustador que deseja espalhar o caos pelo mundo, enquanto o Batman apresenta uma personalidade sóbria e cheia de virtudes, lutando para fazer valer a lei na cidade de Gotham.

Nessa pequena história publicada em 1940 estão reunidos traços fundamentais da relação Batman-Joker que são explorados até hoje nas diversas adaptações e recriações do universo fictício do Cavaleiro das Trevas.

O Coringa não apenas rouba joias preciosas de ricaços de Gotham, como avisa previamente os crimes que irá cometer, para brincar, num jogo de gato-e-rato, com a polícia e a dupla dinâmica de heróis. Além da satisfação de ser caçado, ele lança mão de estratégias muito elaboradas, dignas de um verdadeiro gênio do mal, inclusive utilizando disfarces (o que consagrou o Coringa de Ledger) para pegar suas vítimas e os leitores de surpresa.

Outro detalhe notável é o senso de humor do Batman, fazendo algumas piadas mais engraçadas até do que as do próprio Coringa na hora da luta entre os dois, como: “Você pode ser o Coringa, mas eu sou o Rei de Paus!” Hahaha Boa, Batman!😆

Adaptação para o cinema

Em julho do ano passado, no painel Justice League: Gods and Monsters, da San Diego Comic-Con 2015, foi anunciada a adaptação fílmica da HQ A Piada Mortal para uma animação da DC com estreia prevista para julho deste ano, durante a SD Comic-Con, que ocorreu do dia 21 até 24.

Aqui no Brasil a animação será exibida na noite de 25 de julho, segunda-feira, às 20h, pela rede Cinemark em parceria com o site Omelete, que está fazendo a cobertura direto do evento em San Diego. Por isso, se tiver Cinemark em sua cidade, não perca! Em breve publicaremos resenha do filme por aqui!🙂

Esta é a sinopse oficial da animação para maiores baseada na HQ de Alan Moore, divulgada pela DC:

“O que é necessário para alguém pirar? Quanto desespero uma mente suporta antes de quebrar? Essas são questões controversas que o Coringa está disposto a responder, para mostrar a Gotham que até o homem mais comum, como o Comissário Gordon, está apenas há um dia ruim de distância de encarar a insanidade. Baseada na aclamada graphic novel da DC, testemunhe a jornada dentro da mente obscura do Palhaço do Crime. Acompanhe seu começo humilde como um comediante até seu fatídico encontro com o Cavaleiro das Trevas, que muda tudo. Incluindo o retorno de Kevin Conroy como Batman e Mark Hamill como o Coringa, veja o nascimento de um super vilão, a força de um herói e uma linha tênue que vai te deixar sem palavras”. (Fonte: omelete)

Confira o trailer oficial divulgado pela DC Entertainment:

Ficha Técnica

Título: Batman: A Piada Mortal
Título original: Batman: The Killing Joke
Roteiro: Alan Moore
Arte, cores e capa: Brian Bolland
Editora: Panini Books
Editora original: DC Comics
Edição: 2011
Ano da obra / Copyright: 1988
Páginas: 86
Skoob: Adicione
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