| Crítica | Batman: A Piada Mortal (Batman: The Killing Joke, 2016)

Às vezes, eu me lembro de uma maneira, ora de outra. Se vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha. Minha conclusão é… Eu fiquei louco. E sou inteligente o suficiente para admitir isso. Por que você não? (Coringa)

A adaptação de A Piada Mortal (1988), uma das histórias em quadrinhos mais aclamadas do universo de Batman, para uma animação seria um projeto de grande ousadia e cobrança, que exigiria um considerável trabalho de seus produtores para agradar tanto aos fãs veteranos quanto aos novos admiradores do Cavaleiro das Trevas e de sua eterna nêmesis.

A HQ escrita pelo mito Alan Moore tornou-se famosa por mostrar a origem do Coringa e trazer situações limite para as personagens que aparecem nesta edição, como o Comissário Gordon, sua filha, Barbara, o Batman e o próprio Coringa, cujas ações extremas acabaram provocando um grande impacto no curso de toda a história daquele universo.

O trabalho de adaptar essa história de tamanho prestígio para o cinema ficou a cargo de Sam Liu, que já dirigiu diversos filmes da Marvel Entertainment, da Warner Bros. Animation e da bem sucedida DC Entertainment. Já o roteiro foi escrito por Brian Azzarello, que também escreveu a história de Coringa (2009), outra HQ de enorme sucesso sobre o Palhaço do Crime. Além destes, o elenco contou com dubladores de peso, como Mark Hamill dando voz ao Coringa, e já vale a pena adiantar que ele fez um excelente trabalho de dublagem, como já era esperado; Kevin Conroy, como a voz firme e sóbria do Batman, Tara Strong, como a voz enérgica de Barbara Gordon, e Ray Wise dando vida e intensidade à voz do Comissário.

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Com uma reunião de tantos talentos na produção de um filme da DC, o que já se tornou sinônimo de qualidade, as expectativas foram às alturas e a animação ganhou grande popularidade antes mesmo de sua estreia. Infelizmente, quando se aposta alto demais o risco de decepção é maior ainda. E o sentimento de “eu esperava mais” predominou em grande parte dos expectadores da animação.

Como a história original de A Piada Mortal é breve, o público já imaginava que ela seria incrementada com outras tramas para alcançar a duração de um filme, o problema seria a eficácia dessa extensão na história. O filme começa então com um monólogo da Batgirl espiando a vida noturna de Gotham, e a primeira parte da animação transcorre com a ação da dupla Batman e Batgirl perseguindo uma gangue de assaltantes liderada por Paris Franz, sobrinho de um dos chefões do crime na cidade de Gotham.

Essa primeira parte dá uma grande ênfase na personagem Batgirl (o que pessoalmente me agradou muito), e leva até a um envolvimento mais íntimo entre essa personagem e o Batman, culminando na cena mais polêmica desta animação para maiores, na qual a Batgirl derruba o Batman, dá-lhe um golpe baixo, e.. comete o ato subversivo e polêmico de tirar a máscara e o traje de Batgirl, numa clara sugestão sexual que causou muita discussão no meio nerd (sério? Levar tiro pode, tirar a blusa pro love, não, minha gente?).

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O problema não foi essa cena em questão, nem o protagonismo da Batgirl na primeira parte, mas a falta de uma conexão sólida entre este primeiro trecho e o segundo segmento do filme, parecendo tratar-se de dois episódios de uma série que se complementam, mas não necessariamente se interligam enquanto filme.

A segunda parte do filme compreende de fato a adaptação de A Piada Mortal, e quando esta começa provoca uma leve sensação de estar começando um outro filme, ou até um questionamento da utilidade do semivilão Paris Franz. Por que não exploraram o Coringa desde o início? A gente “adora” ele, afinal!

E o problema dessa segunda parte da animação é talvez seu mérito, pois a adaptação fílmica ocorreu com uma enorme fidelidade à história original dos quadrinhos, o que a tornou um pouco previsível para quem já havia lido a HQ e até com pouca carga emocional para quem não conhecia a história clássica. Algumas cenas desnecessárias foram acrescentadas, como a procura do Batman pelo Coringa num subúrbio em que conversa com prostitutas, que dizem que o Palhaço Psicótico “vem sempre aqui”, risinhos. (Será que elas continuariam vivas depois que o Coringa cruzasse com elas?)

Mas também há cenas pertinentes que foram incluídas, como o julgamento do Comissário Gordon, e a luta do Batman versus Coringa na reconstrução da antiga morada, virada de cabeça para baixo, do aprendiz de comediante.

Por fim, o grande êxito dessa animação fica por conta da composição do Coringa e de tudo o que esse personagem paradoxalmente obscuro e extraordinário representa. A dublagem excepcional de Mark Hamill, que lhe confere um misto de assombro e divertimento, é um trabalho notável que por si só já vale o filme. Quando o aturdido Comissário Gordon durante seu martírio pergunta-lhe o que está acontecendo, e o Coringa responde, “you’re going maad…”, a entonação da personagem é de causar arrepios até na alma, é aí que você percebe que está diante de um grande trabalho à altura de um personagem mítico.

Na cena pós-créditos, ainda há um retorno à trama explorada na primeira parte do filme que revela o que acontece com a personagem que se tornou a grande vítima da vez do Coringa.

Esta pode não ter sido a animação mais bem sucedida da DC e talvez até caia no esquecimento ou desgosto dos fãs antigos e telespectadores novos, mas com certeza ela tem seus momentos áureos e é importante por mostrar um Batman vulnerável que se preocupa até mesmo em reabilitar seu maior inimigo e causador de profundo sofrimento a todos que mais importam ao defensor de Gotham. O Coringa, num momento raro de sanidade reconhece, é claro, que talvez seja tarde demais para pular do prédio e fugir do abismo da loucura, mesmo que a lanterna permaneça acesa durante a travessia.

Trailer

Ficha Técnica

Título: Batman: A Piada Mortal
Título original: Batman: The Killing Joke
Direção: Sam Liu e Bruce Timm
Roteiro: Brian Azzarello e Alan Moore
Elenco: Mark Hamill, Kevin Conroy, Tara Strong, Ray Wise
Gênero: Animação, suspense
Origem: EUA
Duração: 76 minutos
Classificação: 17 anos

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