| Resenha | A Definição do Amor, de Jorge Reis-Sá

“Dizem que primeiro se nega, depois se revolta, se negocia, se deprime e finalmente se aceita a inevitabilidade dos olhos fechados. Mas o tempo não deixou que tanto fosse possível – aceitarei eu um dia que ela não seja?” (p. 217)

Portugal é a terra natal da saudade. Decerto, esse não é um sentimento exclusivo dos portugueses, mas é o único povo que sentiu a necessidade de dar-lhe um nome específico, que expressa com exatidão o sentimento de prazer sobre a perda.

Por esse motivo, a saudade é um tema frequente em sua língua de origem, como versejou Fernando Pessoa em uma de suas quadras; “saudades, só portugueses conseguem senti-las bem, porque têm essa palavra para dizer que as têm.”

Não apenas a saudade e a melancolia ficam do outro lado do oceano, sonhando com a volta das naus que partiram para sempre, mas o amor é outro de seus temas favoritos, experimentado em alguns de seus grandes poemas, como definiu Camões, em seu soneto mais conhecido: “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente…”.

Outro português, o escritor contemporâneo Jorge Reis-Sá, reuniu estes sentimentos vitais em sua obra A Definição do Amor, numa tentativa audaciosa de definir essa força poderosa que move o mundo há tempos, desde muito antes do ideal romântico ou das divindades providas de arco e flecha para acertar corações distraídos.

Vanessa Portugal Porto 2012

O resultado disso é uma narrativa melancólica e delicada sobre a iminência da perda, por vezes intercalada com relatos interditos de acontecimentos eróticos de personagens ausentes. A trama central gira em torno do sofrimento de Francisco Janela, professor de filosofia, que assiste ao perecimento da esposa Susana, vítima de um AVC que a conduziu a um estado de coma, enquanto estava no trabalho.

A obra desenvolve-se em forma de diário com as confissões e apelos do narrador, Francisco, que vai relatando a longa despedida de sua amada, durante nove meses, pois, após sofrer o AVC, os médicos diagnosticaram que Susana estava grávida, e não teria mais chances de sobreviver até depois do nascimento de seu bebê.

Assim segue a narrativa, com a luta de Francisco para retomar a vida, acostumar-se com sua nova condição de vir a ser viúvo, e voltar a cuidar do filho de um ano de idade, André, que foi adotado provisoriamente pela avó durante a internação da mãe. Durante esses meses de padecimento, Francisco observa o amor discreto de dona Carlota, avó de Susana, e seu Fidélio, um vizinho acostumado a alimentar pombos em seu quintal, e que tinha muito carinho por Susana. A mãe desta não se deu ao trabalho de ir visitar a filha no hospital, pois não nasceu para a afetividade, mas para aproveitar a vida e o deleite sexual.

Somente dois amigos do casal ainda mantêm contato com Francisco e dão-lhe apoio nesse difícil momento; Fernando, um quase irmão do narrador, e Rita, que deixou Portugal para ir à França ser livre para amar outra mulher, Sophie, com a qual se casou.

Interpostas aos capítulos de desabafo de Francisco sobre o estado de sua esposa, estão as cartas de familiares antigos de Susana, que contam seus casos de amor proibido; como um padre que se envolveu com dois rapazes gêmeos, uma tia que se apaixonou pelo sobrinho, outra personagem que abortou um filho para casar-se com seu amado, e este último que após ter-se casado, tornou-se tão obcecado pela esposa, que acabou por matá-la. Todas  estas são histórias nas quais o amor é levado até às últimas consequências, e nos faz refletir sobre seu verdadeiro significado e até mesmo se vale a pena desistir de tudo em nome de um grande amor.

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Por fim, o relato do professor Francisco Janela nos ensina que a definição do amor é relativa a cada indivíduo e suas próprias experiências, pois o amor varia de acordo com a pessoa, com a fase da vida e com as oportunidades de realização amorosa. Portanto, ao nos perguntarmos “o que é o amor?”, temos de levar em conta nossos próprios sentimentos e ações para torná-lo possível e aproveitar as circunstâncias oportunas para a realização desse sentimento, cheio de contradições e surpresas do destino (para quem acredita) ou do acaso (para quem não liga).

Em suma, esta é uma obra repleta de nostalgia e reflexões, indicada para quem gosta de narrativas existencialistas e deseja mergulhar num exame introspectivo acerca da morte, da solidão, da saudade, e do amor.

Dantes escrevia poemas de amor.

Depois disseram-me já toda a gente o fez,
nada mais havia a escrever sobre o amor,
o amor já estava em demasiados poemas.

Eu aceitei o conselho
passei a escrever poemas de morte.

Até o dia em que percebi
a morte é sinónimo do amor
e voltei a escrever o que nada mais havia a dizer.
(p. 253)

Ficha Técnica

Título: A Definição do Amor
Título original: A Definição do Amor
Autor: Jorge Reis-Sá
Editora: Tordesilhas
Edição: 2016
Ano da obra / Copyright: 2015
Páginas: 256
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