| Resenha | Livro de Letras, de Vinicius de Moraes

 “A onda solitária é o berço do amor e há uma música eterna nas formas invisíveis”
(Uma mulher no meio do mar)

Vinicius de Moraes fez da poesia seu estilo de vida e da música sua religião, à qual se dedicava com total fidelidade e devoção. Por meio da música, Vinicius conquistou uma variedade de parceiros e seguidores, tornando-se um dos principais sacerdotes da Bossa Nova, movimento artístico de grande prestígio internacional, que firmou as bases da revolução estética da música popular brasileira.
Como principal articulador da Bossa Nova, Vinicius era o ponto de conexão entre vários artistas e acabou por “descobrir” outros grandes expoentes desse estilo musical nos encontros noturnos em boates cariocas que frequentava. Assim, o poetinha teve contato com diversos cantores e cantoras, compositores, pianistas e violonistas, que logo despontariam no cenário musical e alcançariam sucesso internacional.
Sua produção literária desde cedo foi reconhecida, no entanto, foi no papel de letrista que Vinicius encontrou seu lugar e um significado maior para sua vida. Esta nova edição do Livro de Letras, de Vinicius de Moraes, publicada pela Companhia das Letras em 2015, é a mais completa coletânea das músicas compostas por Vinicius, reunindo todas as letras que compôs sozinho ou com grandes companheiros, como Tom Jobim, Baden Powell, Carlos Lyra, Toquinho, João Gilberto, Pinxinguinha, Chico Buarque e muitas outras parcerias de sucesso.

vinicius-letristaEssa coleção de poemas revela a tradução da paisagem poética de fim de tarde que a Bossa Nova representa, com a perfeita conciliação entre o erudito e o popular. Todos os sentimentos inerentes ao poeta, como o amor, a idealização da mulher, a melancolia, a tristeza existencial, o gosto pela boemia e o desejo de vaguear pela noite com os amigos, estão expressos nas composições de Vinicius, que foram afinadas com as melodias criadas por seus parceiros músicos.
O registro silencioso das músicas de Vinicius tornam esta obra um material precioso para os admiradores do poeta e uma joia rara para colecionadores de poesia brasileira. Confesso que este livro eu li e ouvi, pois realizei a leitura dos poemas com o celular do lado tocando as músicas para acompanhar as letras, e foi uma experiência fascinante, realmente me entreguei à Bossa Nova por uns dias rsrs.
Além das composições, esse livro é complementado com textos de Paulo Costa e Silva, José Castello e Eucanaã Ferraz sobre a obra e a vida de Vinicius de Moraes, análises de algumas de suas célebres canções, além de uma pequena crônica de Alexandre O’Neill sobre um concerto de Vinicius e Baden em Portugal.

vinicius-de-moraes_poeta-boemioDentre as passagens mais interessantes do livro, destaca-se a lendária origem da primeira composição do poeta, que segundo a história contada pela família, antes mesmo de falar, Vinicius compôs a “letra” de uma música que cantarolava ainda bebê: “Ê batetê/ Ê cabidu/ Ê batetê batetê/ Cabidu”. Esse conto familiar é repassado quase como uma anedota, mas ainda revela a importância que a música teve na vida de Vinicius e o talento que nasceu com ele e o acompanhou por toda a sua história.
A infinidade de parcerias com artistas tão diferentes é explicada com um toque de comicidade por Stanislaw Ponte Preta: “Claro que ele é plural, ele é Vinicius de Moraes. Se fosse um só, seria Vinicio de Moral.”. De fato, a pluralidade esteve presente em toda a vida de Vinicius, seu trabalho como diplomata, no qual ingressou por meio de concurso, permitiu-lhe que viajasse o mundo e conhecesse uma multiplicidade de culturas e idiomas. No campo amoroso, Vinicius também fez jus à complexidade de seu coração, e buscou o amor em cada um de seus nove casamentos.
Não sabemos se ele conseguiu esgotar todas as letras que inquietavam seu interior, mas o poetinha, como costumava ser chamado, deixou um vasto legado de seu trabalho com as palavras para serem cantadas. Vinicius saudou a tristeza e captou a eternidade do amor efêmero, desenhou por meio das letras as primeiras paisagens do céu estrelado de Brasília, transformou o Rio, o samba e as belas mulheres em delicada poesia. Enfim, Vinicius foi plural, eterno e inspirador. Este Livro de Letras é para ser lido, ouvido, apreciado e revisitado infinitamente enquanto durar.


Acompanhe algumas letras inesquecíveis de Vinicius:

Soneto de Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Composição de Vinicius de Moraes e Capiba)

O amor pode não ser imortal, posto que é chama, mas este poema certamente é.

Garota de Ipanema

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço
A caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de lpanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, por que estou tão sozinho?
Ah, por que tudo é tão triste?
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

(Composição de Vinicius de Moraes e de Tom Jobim)

Quem diria que a inusitada proposta de um musical sobre um extraterrestre que aterrissava de um disco voador na praia de Ipanema, daria origem a uma das músicas mais importantes da cultura brasileira!?

O espetáculo foi abortado antes mesmo de estar pronto, mas a música Garota de Ipanema, que tratava de um marciano encantado pela beleza de uma mulher brasileira, conquistou não apenas o alienígena, mas o mundo inteiro.

Brasília, Sinfonia da Alvorada

I- O PLANALTO DESERTO
No princípio era o ermo
Eram antigas solidões sem mágoa.
O altiplano, o infinito descampado
No princípio era o agreste:

O céu azul, a terra vermelho-pungente
E o verde triste do cerrado.
Eram antigas solidões banhadas
De mansos rios inocentes
Por entre as matas recortadas.
Não havia ninguém. A solidão
Mais parecia um povo inexistente
Dizendo coisas sobre nada.
Sim, os campos sem alma
Pareciam falar, e a voz que vinha
Das grandes extensões, dos fundões crepusculares
Nem parecia mais ouvir os passos
Dos velhos bandeirantes, os rudes pioneiros
Que, em busca de ouro e diamantes,
Ecoando as quebradas com o tiro de suas armas,
A tristeza de seus gritos e o tropel
De sua violência contra o índio, estendiam
As fronteiras da pátria muito além do limite dos tratados.
– Fernão Dias, Anhanguera, Borba Gato,
Vós fostes os heróis das primeiras marchas para o oeste,
Da conquista do agreste
E da grande planície ensimesmada!
Mas passastes. E da confluência
Das três grandes bacias
Dos três gigantes milenares:
Amazonas, São Francisco, Rio da Prata;
Do novo teto do mundo, do planalto iluminado
Partiram também as velhas tribos malferidas
E as feras aterradas.
E só ficaram as solidões sem mágoa
O sem-termo, o infinito descampado
Onde, nos campos gerais do fim do dia
Se ouvia o grito da perdiz
A que respondia nos estirões de mata à beira dos rios
O pio melancólico do jaó.
E vinha a noite. Nas campinas celestes
Rebrilhavam mais próximas as estrelas
E o Cruzeiro do Sul resplandecente
Parecia destinado
A ser plantado em terra brasileira:
A Grande Cruz alçada
Sobre a noturna mata do cerrado
Para abençoar o novo bandeirante
O desbravador ousado
O ser de conquista
O Homem!

O presidente da República Juscelino Kubitschek (1956 – 1961) idealizou e concretizou o sonho de construir uma nova capital para o Brasil. Além de renovar o cenário político e econômico do país, JK foi um importante incentivador no campo nacional das artes.

Desse modo, o presidente convidou a dupla Vinicius de Moraes e Tom Jobim para criarem uma composição para orquestra em homenagem à sonhada capital. Assim nasceu a Sinfonia da Alvorada, ou Sinfonia de Brasília.

Ficha Técnica

Título: Livro de Letras
Autor: Vinicius de Moraes
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2015
Ano da obra / Copyright: 2015
Páginas: 360
Skoob: Adicione
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