| Resenha | Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, de David Foster Wallace

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“Os rostos dos cavalos são compridos e por algum motivo lembram caixões”.

Ler qualquer obra do escritor estadunidense David Foster Wallace é um desafio. Podemos deduzir, inclusive, que sua escrita tem como uma das intenções principais torturar o leitor. Os recursos são vários: vocabulário rebuscado; termos técnicos; muitas abreviações; notas de rodapé imensas; quebra de linearidade frequente; extensivas orações concatenadas; etc. Por conta do estilo e repercussão de sua obra, ele figura como um dos escritores que marcaram o advento da pós-modernidade na literatura norte-americana, ao lado de nomes como Thomas Pynchon, Donal Barthelme e Don DeLillo.

Sua prosa tem chamado a atenção de críticos literários e leitores de todo o mundo, seja pela sua acidez ao tratar de temas como a cultura de massa, propaganda, felicidade e indústria do entretenimento, quanto pela sua inventividade literária prodigiosa. Infelizmente, o escritor se suicidou em 2008, deixando um livro inacabado, The Pale King, e uma série de devotos aflitos.

Quando terminei a leitura de Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo (2012), coletânea de ensaios e um discurso de paraninfo, o principal questionamento que tive foi: como uma obra com tais características desperta ainda tanto interesse nos leitores? Trata-se de uma pergunta complexa que envolve essencialmente a subjetividade de cada leitor; contudo, tratarei de alguns pontos a partir de minha experiência.

Primeiramente, David F. Wallace possui um senso de humor peculiar. Se você quer uma amostra, assista ao discurso proferido pelo autor em Isto é água. Um dos méritos de DFW é a capacidade de arrancar risadas do leitor em temas extremamente pesados, como a morte, egoísmo, depressão e suicídio. A reflexão sobre a capacidade do ser humano rir de algo profundamente deprimente é uma constante em sua obra. Mas não pense que o autor apela para ofensas ou usa artifícios rasteiros, uma vez que a piada funciona como gatilho interno. Ora você ri muito, ora você dá aquele sorrisinho de canto. No fundo, o humor funciona como crítica e diz muito sobre nós.

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David Foster Wallace (de terno e óculos) no episódio “Uma coisa totalmente divertida que Bart nunca vai fazer novamente”, do seriado Simpsons.

Segundo, todos os textos presentes em Ficando longe do fato… trazem a sensação de que você aprendeu algo, mesmo que superficialmente. No ensaio sobre o tenista Roger Federer são apresentadas várias relações da física com as as habilidades do atleta. Em outro, conhecemos os ritos de preparo da lagosta, juntamente com questões de ética alimentar. A moralidade é outra questão muito tratada nos ensaios. Por incrível que pareça, DFW consegue pôr em xeque determinados códigos morais sem cair no falso moralismo ou hipocrisia. Por exemplo, ao tratar do cozimento cruel da lagosta ou criticar a maneira como são tratados os porcos em uma feira, ele lembra o quão conveniente é pensar dessa maneira, pois dali a pouco vai comer um cachorro-quente.

Além disso, Wallace utiliza diversos mecanismos na sua prosa que “suavizam” tanto a forma do texto quanto o tema tratado, principalmente através da ironia. Pelo menos isso fica claro quando você se depara com um ensaio sobre uma feira agropecuária, que mais parece uma enciclopédia sobre raças de ovinos, caprinos e suínos. Em certos momentos, a vontade de desistir é irresistível, mas daí surge uma reflexão sobre a infância, por exemplo, e a vontade de continuar o texto retorna.

Seu principal romance, Graça Infinita (2014), é tido como um livro para poucos, figurando em quase todas as listas de maior desistência dos leitores mundo afora. Apesar disso, o romance, no que diz respeito aos temas, à linguagem e recursos literários, não é muito diferente do restante de seus livros. Talvez o que assuste mesmo são as mais de mil páginas. Mesmo assim, é compreensível a desistência, afinal, boa parte dos leitores buscam prazer naquilo que leem. E com DFW você irá se deparar inúmeras vezes trabalhando como uma balança, ponderando se o humor e a criatividade suprem as dificuldades do texto e se vale realmente a pena continuar a leitura. No final das contas, o livro me conquistou e despertou um vínculo afetivo como nunca havia experimentado.

Além de Graça Infinita e Ficando Longe do fato…, foi publicado pela Companhia das Letras a coletânea de 23 contos intitulada Breves entrevistas com homens hediondos (2005), adequada para aqueles que desejam uma introdução à obra do autor, por meio de textos menores e com um panorama geral dos principais temas abordados pelo escritor.

Curiosidades

  • David Foster Wallace tinha problemas de higiene. Como disfarce ele carregava consigo durante o Ensino Médio uma raquete de tênis, para que as pessoas pensassem que o suor era motivado pelas partidas.
  • O autor cogitou assassinar o marido da escritora Mary Karr, pela qual nutria uma grande obsessão. Mesmo não praticando o homicídio, Wallace e Karr acabaram se tornando um casal nos anos 90.
  • Após ser rejeitado pela escritora Elizabeth Wurtzel, Wallace escreveu em 1998 “The Depressed Person”, usando como personagem-título a figura da escritora.

Fonte: Rolling Stones

Ficha Técnica

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Título: Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo
Título Original: Consider the Lobster and Other Essays
Autor(a): David Foster Wallace
Editora: Companhia das Letras
Tradução: Daniel Galera
Edição: 2012 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2012
Páginas: 312
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Leia um trecho: AQUI
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