| Resenha | O Homem que Caiu na Terra, de Walter Tevis

“Há um homem das estrelas esperando no céu, ele gostaria de vir e encontrar-nos, mas ele acha que nos espantaria”
(
Starman, de David Bowie)

David Bowie foi mais do que um grande músico, um “camaleão do rock” ou um multifacetado artista, ele tornou-se uma entidade cósmica durante sua extraordinária passagem pela Terra. Em 2016, ano trágico de perdas e acontecimentos políticos marcantes, Bowie também deixou sua marca; a triste notícia da sua partida comoveu o mundo, deixando uma imensa dor à sua família e milhares de fãs, que ainda tentavam assimilar os mistérios daquele que seria seu último álbum, Blackstar, uma despedida antecipada e um sombrio epitáfio à sua própria morte.

Para homenagear o cantor, a Editora DarkSide Books lançou neste ano uma coleção literária dedicada a Bowie, com os livros Labirinto e O Homem que Caiu na Terra, duas obras cujas adaptações para o cinema firmaram sua carreira como ator talentoso e enigmático. Estas qualidades valiosas, que se somavam à sua versatilidade, tornaram-se sua marca registrada e admirada pelos fãs; a mutabilidade,  a capacidade de se reinventar e multiplicar a própria personalidade, explorando cada fagulha ou lampejo de criatividade que surgia.

Bowie se descobriu como o homem das estrelas na canção Starman, mas viveu como uma estrela entre os homens. Sua queda meteórica na Terra influenciou uma legião de músicos, cantores e artistas das mais diferentes modalidades, e mesmo que não esteja mais entre nós, fisicamente, sua luz continua brilhando e guiando sonhadores como ele, viajantes labirínticos.

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Em O Homem que Caiu na Terra conhecemos a história de um viajante espacial vindo de outro mundo para tentar estabelecer um lar para si e sua espécie, pois a vida em seu planeta de origem, Anthea, estava fadada à extinção. Devido à exploração excessiva de todos os recursos naturais e incontáveis guerras, Anthea tornou-se um planeta inabitável, sem água e sem comida suficientes para os poucos sobreviventes da única raça que restou, e que, ironicamente, foi a causadora da destruição e escassez dos elementos naturais de seu planeta.

O antheano que chegou à Terra, disfarçado de ser humano, com o nome de Thomas Newton Jerome, era a única esperança de seu povo e trouxe consigo a grande responsabilidade de conhecer o novo planeta, verificar as condições de vida e adaptação de sua espécie, além de empreender a construção de um veículo espacial capaz de armazenar combustível para uma viagem de ida à Anthea e retorno à Terra num período máximo de dez anos, tempo limite para a duração das reservas de alimento para os quase 300 antheanos remanescentes.

Newton havia estudado o planeta Terra por meio da transmissão dos canais de TV em seu mundo de origem durante anos, apesar disso, a experiência na Terra mostrou-se um desafio bem maior do que ele imaginava. Aos poucos, Newton foi se “humanizando”, enriqueceu em pouco tempo às custas de seus conhecimentos superavançados em tecnologia e ciência, uma vez que sua civilização estava anos-luz à frente da civilização humana em termos científicos e técnicos.  Logo Newton acostumou-se ao luxo e ao vício em álcool, influenciado por sua amiga e “quase-enfermeira” Betty Jo, viciada em Gim.

Um professor de química, Nathan Bryce, aproxima-se de Newton, impressionado com a genialidade do inventor e suas técnicas inovadoras que haviam revolucionado o mundo, como a revelação a gás de filmes autorreveláveis (lembrem-se que o livro foi escrito antes da nossa era digital), espoletas que não utilizavam pólvora e muitas outras invenções que pareciam ter vindo de um ser mais evoluído. Dessa forma, Bryce começa a desconfiar da possibilidade de Newton não ser deste planeta.

“É como se fôssemos homens das cavernas… ou alguém desse um relógio de pulso a um romano na antiguidade e ele soubesse o que é um relógio de sol…” (Nathan Bryce, p. 56-57)

Por fim, a prosa fluida aliada à linguagem simples e objetiva de Walter Tevis proporcionam, em O Homem que Caiu na Terra, uma das obras mais realistas e equilibradas de ficção científica que um leitor possa ler. Publicada em 1963, a obra de Walter Tevis serve como um alerta para a humanidade aprender a utilizar os recursos naturais do nosso planeta com mais responsabilidade, para que as futuras gerações não sejam condenadas a ter um destino parecido com o dos antheanos, e ter que atravessar a galáxia, como última oportunidade de sobrevivência, à procura de um novo planeta onde possam habitar.

Adaptação para o cinema

o-homem-que-caiu-na-terra-filme-david-bowieEm 1976, foi lançado o filme O Homem que Caiu na Terra, dirigido por Nicolas Roeg e estrelado por David Bowie. O filme é a adaptação do romance homônimo de ficção científica de Walter Tevis. Apesar de se tratarem de duas obras de arte diferentes, visto que cada uma é construída dentro da sua própria diegese, seu universo fictício, por meio do respectivo suporte artístico, comparações entre o filme e o livro são inevitáveis, pois um acabou servindo de influência para a criação do outro e este segundo contribuindo para uma posterior complementação do primeiro produto criativo.

Neste caso, parece difícil não pensar que o personagem de Thomas Newton Jerome não fora escrito inspirado em David Bowie, uma vez que sua interpretação é plena e quase natural no papel de extraterrestre vindo de um longínquo planeta em busca da sorte nos negócios e melhores chances de vida. A complexidade da personagem é explorada até os limites pelo ator nessa terra de possibilidades infinitas de consumo e desproporcional distribuição de recursos naturais e materiais.

A proposta deste filme é uma representação naturalista da realidade, por isso as cenas de sexo e nudismo podem chocar um público com expectativas mais românticas para esta película. Diferentemente do livro, no qual Newton é retratado como um ser mais racional e difícil de ser decifrado, mas que termina caindo no vício da bebida, do egoísmo e de sua própria complexidade emocional, o Thomas Newton do filme, de início, um ser quase élfico e controlado, torna-se muito mais passional, envolvendo-se numa relação amorosa doentia com a desequilibrada Betty Jo.

As demais personagens também são representadas de forma naturalista, sem floreios hollywoodianos, a sociedade é retratada como uma selva de pedra onde seres humanos, “animalizados” (me perdoem, animais, não achei outro termo mais expressivo) pela necessidade de poder, sexo e dinheiro, agem de acordo com seus instintos primitivos e passam por cima de tudo e de todos para garantirem a realização de seus desejos hedonistas. Em suma, a leitura do livro se torna bem mais interessante com a experiência do filme e vice-versa, pois são visões diferentes, que, no entanto, se complementam.

Confira o trailer do filme:

Melhores Citações do livro

Era humano, mas não exatamente um homem. Também como os homens, era suscetível ao amor, medo, a dores intensas e à autopiedade. (p. 19)

Duas das paredes eram cobertas por estantes de livros e na terceira havia uma pintura imensa de uma figura religiosa que Newton reconheceu como Jesus, pregado em uma cruz de madeira. O rosto naquela imagem o assustou: sua magreza e os olhos grandes e penetrantes poderiam ser os da face de um antheano. (p. 29)

Era sobre essa classe-média repleta de comodidades e de roupas caras que quase todos os programas falavam, para que alguém de fora facilmente tivesse a noção de que todos os norte-americanos eram jovens, bronzeados, objetivos e ambiciosos. (p. 70)

A maioria dos homens vive um desespero silencioso. (Henry Thoreau, 101)

E o que sou eu, pensou, senão um hedonista assustado e com pena de mim mesmo? (p. 120)

Curiosidades

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  • Em 25 de outubro de 2016 estreou o musical Lazarus em Londres, criado por David Bowie, pouco tempo antes de seu falecimento. O musical dirigido por Ivo van Hove e com a colaboração de Enda Walsh é baseado no romance de ficção científica de Walter Tevis, O Homem que Caiu na Terra, que foi transformado em filme em 1976, no qual David Bowie fez o papel principal.
  • O espetáculo, que começa com esta frase: “look up here, I’m in heaven” (Olhe aqui, eu estou no céu), foi escrito em uma urgência existencial clara. – afirmou Ivo van Hove, diretor do musical Lazarus (2016). Fonte: aqui.
  • A peça aborda temas próximos a Bowie: a busca de identidade, o sentimento de solidão e abandono e as relações com os outros e com o mundo. No palco, Newton é interpretado por Michael C. Hall, conhecido pelo seu papel na série de televisão “Dexter”, como um assassino justiceiro.  Fonte: aqui.
  • Na 4ª temporada do anime JoJo’s Bizarre Adventure, já conhecido por inúmeras referências da cultura pop e estrelas do rock, o vilão Yoshikage Kira é inspirado em David Bowie, e seu Stand (forma de poder sobrenatural) foi criado com base na forma alienígena do personagem Newton, do filme O Homem que Caiu na Terra, de 1976. Fonte: aqui.

 Ficha Técnica

Título: O Homem que Caiu na Terra
Título original: The Man Who Fell to Earth
Autor: Walter Tevis
Tradutor: Taissa Reis
Editora: DarkSide Books
Edição: 2016
Ano da obra / Copyright: 1963
Páginas: 224
Skoob: Adicione
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