| Resenha | Esperando Godot, de Samuel Beckett

johnminihan_samuelbeckett_boulevardstjacques_paris_1985_3

“As lágrimas do mundo são inalteráveis. Para cada um que começa a chorar, em algum lugar outro pára. O mesmo vale para o riso.”

Assim como a poesia, peças teatrais nunca fizeram parte de minhas preferências literárias (com exceção de Shakespeare e Ibsén). Talvez minha relutância com a dramaturgia tem a ver com meu preconceito aliado à dificuldade de construir mentalmente a figura das personagens e suas posições dentro da narrativa. Sair da zona de conforto é sempre incômodo, porém, necessário. Quantos grandes autores e livros deixamos de lado por conta disso? Com isso em mente, decidi ler “Esperando Godot” (2005), obra que colocou o irlandês Samuel Beckett como um dos mais importantes dramaturgos do século XX.

Na peça temos apenas seis personagens, que são Vladimir, Estragon, Pozzo, Lucky e Um garoto. Basicamente, os dois primeiros estão à espera de alguém que não sabemos nada a respeito, muito menos se aparecerá em algum momento. Enquanto esperam por Godot, essa entidade desconhecida, Vladimir e Estragon têm conversas sobre uma variedade de temas. O mais estranho nestas conversas é o distanciamento sugerido pelos diálogos, quase sempre secos e resumidos ao máximo de três linhas, remetendo a uma espécie de burocracia da comunicação que os força a falar somente o essencial. O paradoxo maior é que Vladimir e Estragon aparentam uma relação de dependência muito forte, beirando uma relação amorosa.

walmor-chagas-e-cacilda-becker-em-montagem-de-esperando-godot-dirigida-por-flavio-rangel-1358543728765_956x500
“Esperando Godot” é uma das peças mais encenadas no Brasil. Na foto, Cacilda Becker e Walmor Chagas na primeira montagem profissional da obra, em 1969, dirigida por Flávio Rangel.

Os elementos que situam o espaço e tempo da narrativa são descritos apenas como “Estrada, árvore, à noite”. O uso do cenário mínimo, característico da obra becketiana, nos deixa ainda mais desnorteados na trama. A (des)construção do espaço aprofunda a sensação de isolamento e solidão das personagens, apesar da ironia e desentendimentos frequentes entre Vladimir e Estragon.

No início, o enredo é marcado principalmente pela comicidade e devaneios dos dois personagens, interrompida pela vinda de Pozzo e Lucky. Pozzo é um sujeito aristocrata que explora Lucky como um escravo, trazendo este amarrado pelo pescoço como um cachorro. Da dupla, Pozzo é o único que fala, o outro apenas fica calado carregando uma mala pesada. Vladimir e Estragon conversam naturalmente com Pozzo sobre seus dramas pessoais, embora se mostrem incomodados com essa relação patrão e criado levada ao extremo. Em um dado momento, entra Um garoto anunciando que Godot não virá, talvez só amanhã. Encerra-se o primeiro ato com a notícia.

O segundo ato é a cópia do primeiro, com exceção de que agora cresceram algumas folhas na árvore. As falas mudam, claro, mas a impressão que temos é a de que tudo irá se repetir. A espera continua, os devaneios, o humor, a vinda de Pozzo e Lucky, a vinda de um mensageiro com a notícia que Godot só virá amanhã.

Geralmente não crio expectativas sobre desfechos de livros. Acredito que resumir obras literárias a uma grande descoberta final é um desperdício; embora seja um recurso essencial em alguns contextos. No caso de Esperando Godot, considero a vinda de Godot apenas o fio narrativo. Em nenhum momento cogitei um encerramento diferente. Mas como todo mistério gera uma série de teorias, com esta peça não seria diferente.

O principal entendimento é de que Godot é uma metáfora da espera por Deus, reforçado pela semelhança do nome com God. Outros afirmam que Godot é apenas uma invenção da dupla principal, tanto é que Pozzo e Lucky pouco se importam com a chegada dele. Uma interpretação não tão metafórica é que Godot é alguém que irá ajudar os dois personagens a sair da triste situação em que se encontram.

Interpretações à parte, a obra-prima de Beckett nos faz refletir sobre temas que afetam a todos nós, como a quebra de expectativa, tédio, solidão, dependência, dificuldade de comunicação, esperança. Quantas vezes esperamos por algo e no final descobrimos que a espera foi em vão? Quem nunca teve que iniciar uma conversa sobre um tema delicado e se deparou impotente diante da situação? Os questionamentos nunca se encerram, tanto durante a leitura quanto depois de terminada a obra.

Samuel Beckett tem inúmeros livros traduzidos no Brasil, são eles: Primeiro Amor (2015), Textos para nada (2015), Murphy (2013), Fim de Partida (2010), Dias Felizes (2010), publicados pela finada Cosac Naify. Além destes, já foi publicada a “trilogia do pós-guerra”, composta por O inominável (2006), Molloy (2014) e Malone Morre (2014), pela Biblioteca Azul. O escritor irlandês ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1969 e faz parte dos representantes do Teatro do Absurdo, ao lado de Eugène Ionesco, Jean Genet e Arthur Adamov, que buscaram em suas obras expressar o vazio de sentido da condição humana.

Ficha Técnica

page_1

Título: Esperando Godot
Título Original: Waiting for Godot
Autor(a): Samuel Beckett
Editora: Cosac Naify
Tradução: Fábio de Souza Andrade
Edição: 2009 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2009
Páginas: 180
Skoob: Adicione
Compre: Amazon

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s