A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector

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“É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.” (Clarice Lispector)

Clarice Lispector é uma das escritoras mais queridas pelos jovens leitores brasileiros. Conheço, no mínimo, umas quatro pessoas que a consideram sua autora favorita. Por outro lado, Clarice possui um estilo de narrativa que costuma afastar os desavisados e até mesmo uma parcela de seus leitores. Neste último caso, o livro que costuma dividir opiniões é A paixão segundo G.H. (2009), considerado por muitos a sua maior obra, e por outros um livro hermético e chato.

Em A paixão segundo G.H., Clarice utiliza um recurso muito comum na sua obra, principalmente nos contos, que é a construção de histórias a partir de um enredo aparentemente banal. O romance se inicia quando uma mulher despede sua empregada e decide fazer uma limpeza no quarto de serviços. Ao adentrar no ambiente, a mulher se depara com uma barata e a esmaga contra a porta do armário. Momentos depois, contrariando o nojo inicial que nutria pelo inseto, decide provar o gosto da barata.

Contudo, até a culminância deste famoso episódio da literatura brasileira em que a narradora deixa inúmeros leitores com nojo, Clarice exibe uma capacidade de observação que beira o transcendental. Antes mesmo de conhecermos o quarto da empregada, a personagem principal nos envolve em um dos principais dilemas humanos: a solidão. Este sentimento, aliado com a profunda consciência de que sua casa foi tomada pelo silêncio, cria uma atmosfera de tédio aparentemente intransponível.

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Clarice Lispector em entrevista ao “Panorama Especial” (1977), no mesmo ano de sua morte.

O mais impressionante desta obra é como Clarice consegue tirar o leitor da zona de conforto condenando a personagem principal à dura tomada de consciência da sua própria rotina. Diante da visão do apartamento vazio, a personagem percebe que sua casa é permeada de mistérios e, ao mesmo tempo, alheia à sua existência.

Além disso, por mais que a empregada não apareça na narrativa, sua ausência tem um papel fundamental na trama, isso porque não temos conhecimento real do motivo que levou a empregada a ser despedida, o que torna a personagem principal ainda mais enigmática. Afinal, ela foi demitida de forma injusta ou perdeu o emprego por que merecia? Embora pareça desimportante, a busca pela tal resposta diz muito sobre o que esperamos da leitura de A paixão segundo G.H.

Nesse sentido, entre os que detestam o livro pela suposta chatice e os que amam o livro, posso afirmar que estou mais próximo dos últimos, embora reconheça que o romance de Clarice está longe de ser uma obra simples e de enredo instigante. Se o livro realmente peca nesses aspectos, por outro lado, a sensibilidade aguçada transborda em todas as páginas.

Provavelmente esta será a menor resenha que escreverei na vida. Comigo acontece algo estranho; quanto maior minha identificação com a obra, mais dificuldade tenho de expor minhas impressões. No mais, indico mesmo é que leiam mais Clarice Lispector em 2017, de preferência, A paixão segundo G.H.

Ficha Técnica

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Título: A paixão segundo G.H.
Autor(a): Clarice Lispector
Editora: Rocco
Edição: 2009 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2009
Páginas: 179
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