| Resenha | Um senhor muito velho com umas asas enormes, de Gabriel García Márquez

O real maravilhoso é considerado por muitos pesquisadores e críticos literários como o último movimento literário de maior expressão do século XX. A partir da década de 1960, a literatura produzida na América Latina conquistou o mundo, e esse período de intensa produtividade e efervescência cultural ficou conhecido como o “Boom latino-americano”.
Gabriel García Márquez é um dos principais representantes desse movimento, pois, habituado a escutar relatos fantásticos desde a infância, herdou da avó sua forma de contar histórias maravilhosas com um tom de naturalidade. Dona Tranquilina, avó do Gabo, era conhecida por narrar os acontecimentos mais extraordinários ao neto sem alterar um músculo do rosto.
É com esse modo prosaico de encarar a vida que as personagens das narrativas de Gabriel García Márquez lidam com acontecimentos insólitos. Para Alejo Carpentier, que discorreu teoricamente sobre o real maravilhoso no prólogo da obra O Reino deste Mundo (1949), o insólito faz parte da cultura latino-americana, pois é fruto de um continente de simbioses e miscigenações.
Segundo Carpentier, “o real maravilhoso nosso, é o que encontramos no estado bruto, latente, onipresente em toda a América Latina. Aqui o insólito é cotidiano, sempre foi cotidiano.” (Alejo Carpentier. “Lo Barroco y lo Real Maravilloso” – 1984, p. 122.)
Um senhor muito velho com umas asas enormes é um conto de Gabriel García Márquez publicado originalmente no livro A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada (1972), uma coletânea de contos maravilhosos do autor.

“Suas asas de grande galináceo, sujas e meio depenadas, estavam encalhadas para sempre no lodaçal.”
“Suas asas de grande galináceo, sujas e meio depenadas, estavam encalhadas para sempre no lodaçal.”

Esta edição publicada no Brasil pela Editora Record é ilustrada pela pintora espanhola e ilustradora de livros infantis, Carme Solé Vendrell. A obra apresenta o conto original completo acompanhado de algumas ilustrações de Carme, num estilo cru, sem muitas informações e adornos, abusando da cor marrom e de tons pálidos para representar a decrepitude, a solidão e a própria apatia do anjo moribundo com relação àquele mundo estranho, além de reforçar a posterior indiferença da população da vila com o visitante celestial.
O conto narra um acontecimento extraordinário numa vila simples devastada por uma chuva que durou três dias e tomada por uma peste de caranguejos que invadiam as casas dos moradores. Pelayo estava limpando sua casa da pestilência e jogando os caranguejos de volta no mar, quando notou o corpo de um velho caído no lamaçal no fundo do pátio, o idoso estava numa situação deplorável, com vestes surradas, poucos dentes na boca e alguns fiapos de cabelo na cabeça, porém o atributo mais incomum que ele apresentava era um enorme par de asas de galinha nas costas.
Logo, Pelayo e sua esposa Elisenda, que cuidava para abaixar a febre do bebê recém-nascido deles, chamaram uma sábia vizinha para revelar-lhes a natureza daquele ser fabuloso:

“…chamaram para vê-lo uma vizinha que sabia todas as coisas da vida e da morte, e a ela bastou um só olhar para tirá-los do erro.
– É um anjo – disse-lhes. – Não tenho dúvida de que vinha pelo menino, mas o coitado está tão velho que a chuva o derrubou.” (p. 8)

Assim, a vizinha, detentora de um saber universal e sincrético, concluiu que aquele senhor era um anjo idoso, provavelmente um sobrevivente fugitivo de uma conspiração celestial. Dessa forma, Pelayo tratou logo de arrastá-lo até o cercado de arame e deixá-lo no galinheiro para passar a noite com as galinhas. No outro dia ele e sua esposa resolveriam o caso.
Na manhã seguinte, para a surpresa de Pelayo e Elisenda, o galinheiro estava rodeado por toda a vizinhança que veio ver com os próprios olhos o anjo aprisionado. O padre foi um dos primeiros a examinar a natureza do possível anjo e por fim advertiu a todos sobre os riscos da ingenuidade e das artimanhas do diabo, pois aquele velho com um enorme par de asas não podia ser uma criatura divina, visto que não entendia latim, a “língua de Deus”, nem aparentava uma elevação moral, sujo e fedido daquele jeito.

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“Sua única virtude sobrenatural parecia ser a paciência.”

Logo mais, o bebê de Pelayo e sua esposa curou-se da febre, e Elisenda murou o pátio para cobrar entrada para quem quisesse ver o anjo, que não era nada além de um estorvo para a dona de casa.
Com o tempo, outras criaturas sobrenaturais passaram a visitar a vila, com o objetivo de tomar para si toda a atenção que o ancião galiforme atraía. Uma jovem em forma de tarântula consegue o feito, ao narrar para toda a gente daquela vila sua triste condição em consequência de um castigo por desobedecer aos pais. Foi por conta dessa nova atração na vila, que o anjo tornou-se obsoleto e, por fim, parou de ser importunado pelos habitantes do povoado. Apenas o padre e o casal que abrigava o inexplicável hóspede no galinheiro mantinham suas preocupações com ele. Até que um acontecimento providencial colocaria um fim à perturbação de todos.
Este é um conto magistral de Gabriel García Márquez, que revela toda a sua habilidade em captar a essência da cultura popular da América Latina e traduzi-la em palavras. É uma história curta que condensa em pouco mais de trinta páginas uma variedade de temas, reflexões e críticas do cotidiano, das regras e das instituições sociais que norteiam a vida das pessoas simples.
O anjo caído na casa de Pelayo é uma figura que contrasta bastante com a imagem de anjo da tradição cristã europeia, geralmente associada a uma criança ou jovem com um par de asas exuberantes e conhecedor da verdade universal e absoluta. Por esse motivo, o padre é a personagem mais cética com relação à autenticidade do anjo decrépito, destituído de qualquer nobreza.
As demais personagens dedicam sua atenção ao anjo apenas com uma curiosidade temporária, como se fosse um “animal de circo”, uma criatura incompreendida que em pouco tempo deixa de ser novidade e é substituída por outra criatura mais excêntrica ainda. A tarântula, como enfatiza o narrador, só consegue monopolizar o interesse do público pela descrição detalhada de sua sina, portanto, é a narrativa que atrai, que causa um encantamento naquela população banal que não se deixa levar por excentricidades vãs.

Curiosidades

  • Os artistas chineses Sun Yuan e Peng Yu criaram em 2008 uma obra de arte paradoxal e hiper-realista intitulada Angel, que consiste numa escultura em tamanho humano de um anjo caído, preso numa rede de captura, na forma de uma idosa com asas depenadas. A instalação é uma clara referência ao conto Um senhor muito velho com umas asas enormes, de Gabriel García Márquez.
  • A obra foi feita com materiais como gel de sílica, fibra de vidro, aço inoxidável e tela metálica. Os artistas explicam em seu site que a ideia da escultura é mostrar a tensão entre o mundano e o transcendente: “Este ser sobrenatural agora é uma criatura impotente, incapaz de levar a cabo qualquer vontade suprema ou de ajudar aqueles que acreditam em sua existência. O anjo é real, mas ineficaz”. Fontes: aqui, aqui.

 Ficha Técnica

Título: Um senhor muito velho com umas asas enormes
Título original: Un señor muy viejo con unas alas enormes
Autor: Gabriel García Márquez
Tradutor: Remy Gorga Filho
Editora: Record
Edição: 2002 (3ª)
Ano da obra / Copyright: 1972/1999
Páginas: 34
Skoob: Adicione
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Um comentário

  1. Esse conto é muito bonito. Já faz alguns anos que o li, mas nunca me esqueço, e eu adoro as ilustrações também, embora na época eu tenha lido em pdf. García Márquez é um dos meus autores do coração. ❤

    Beijinhos,
    Aline – Livro Lab

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