Temos uma reputação virtual a zelar! – Black Mirror E01T03

black-mirror-nosediveOlá, querido leitor! Seja bem-vindo 🙂 /

Tomei coragem para voltar a escrever para o blog, finalmente rs 

Quem me acompanha nessa vida bloguística, sabe que ainda busco alcançar um equilíbrio prático entre a vida virtual e a vida offline. E você, já conseguiu atingir essa estabilidade tão sonhada nesses tempos de interatividade digital infinita? Espero que sim, caso contrário, não se preocupe, pelo menos estamos juntos nessa! 😛 (pois é, preocupante) 

Hoje eu vim comentar um pouco as minhas impressões sobre o 1º episódio da 3ª temporada de Black Mirror, Nosedive (Perdedor) – ☆☆☆☆☆. Para quem não conhece, Black Mirror é uma série britânica de ficção científica que idealiza um futuro próximo com os efeitos prejudiciais da tecnologia nas relações humanas, como a dependência crescente e o consumo desenfreado de dispositivos eletrônicos, além da exposição cada vez maior da nossa vida particular e da diminuição de privacidade numa sociedade na qual a máxima predominante é “quem não está conectado, não existe”.

Black Mirror é uma série perturbadora que reflete com nitidez a hiperbolização de nossos vícios e hábitos extravagantes desses tempos sombrios da experiência humana na era da comunicação ilimitada. A realidade construída por trás dos “espelhos negros”, as telas ou monitores de aparelhos eletrônicos, é um reflexo das nossas fantasias megalomaníacas de aprovação social e realizações hedonistas.

Se mesmo antes da era tecnológica, o indivíduo em sociedade já tinha a preocupação de conquistar felicidade, uma carreira profissional bem-sucedida e invejada pelos outros, uma “família margarina” e status social respeitável; na idade do silício, a competição por “quem tem mais”, ou “quem aparenta ter mais” subiu de andar, escalou a escada de emergência e instalou-se no topo da disputa por “quem influencia mais”. Logo a humanidade parou de se preocupar com previsões apocalípticas da virada do milênio e embarcou na corrida virtual por likes, curtidas, retweets e muitos “k” de seguidores.

black-mirror-lacieAs redes sociais, ópio do nosso tempo, ampliaram nossa quantidade de contatos, no entanto, “superficializaram” as relações de amizade, transformando-as num jogo de interesses e dissimulação de personalidades que ocultam com filtros e emojis nossa real solidão coletiva. É sob esta perspectiva que o episódio Nosedive foi construído, projetando um futuro distópico no qual as avaliações através da rede social definem o lugar de cada indivíduo na sociedade.

Por meio de uma cotação de estrelas, que vai de zero a cinco, as pessoas avaliam e são avaliadas por todos, como consequência, o resultado influencia diretamente na sua reputação social. Desse modo, indivíduos com uma avaliação baixa, próxima de zero, são pessoas marginalizadas e indesejadas no convívio coletivo, em contrapartida, indivíduos com avaliação próxima de cinco são considerados “valiosos” e clientes premium, que recebem uma gama de privilégios e regalias sociais.

Tentando encaixar-se nesse sistema de vida, a personagem Lacie (Bryce Dallas Howard), com avaliação 4,2 na rede social, luta para manter sua reputação elevada e conquistar uma posição premium naquela sociedade. Para alcançar seu objetivo, Lacie pretende se mudar do apartamento que divide com o irmão, Ryan, um gamer com avaliação baixa, 3,7, e conseguir uma casa de luxo na comunidade Enseada do Pelicano.

Entretanto, Lacie só estará qualificada a comprar uma casa no condomínio de luxo se obtiver uma avaliação de 4,5 na rede social. A partir daí, a jovem mergulha no jogo dos likes e faz de tudo para melhorar sua reputação virtual, contratando até os serviços de um couching digital, da empresa Reputelligent, que assessora o perfil virtual de seus clientes para melhorar a popularidade, aumentar a esfera de influência e, consequentemente, conseguir boas avaliações de “valiosos”.

black-mirror-nosedive-heroA grande oportunidade de ascensão social surge para Lacie, quando sua antiga melhor amiga, a bem-sucedida Naomi (Alice Eve), com avaliação 4,8, a convida para ser dama de honra no seu casamento ostentoso numa ilha particular. Porém, o sonho de ocupar um lugar no disputado firmamento social despenca na velocidade de uma estrela cadente para Lacie, e ela percebe que nem sempre é possível manter as aparências e seguir as regras do jogo da hipocrisia sem se sujar na lama.

Entre bajular pessoas soberbas, abdicar da própria sinceridade e espontaneidade, na tentativa de agradar a todos, e construir uma reputação impecável para alcançar o sucesso na vida, Lacie acaba se autossabotando, ao rejeitar as pessoas mais próximas, que realmente gostam dela por ser quem ela é, como seu irmão Ryan, e buscar agradar pessoas que “não estão nem aí” para ela, apenas querem usá-la para aumentarem suas estrelas também. Somente no momento em que a ajuda vem da criatura menos esperada, de acordo com os padrões daquele meio social, Lacie começa a perceber que as estrelas não influenciam tanto assim na generosidade e no caráter de uma pessoa.

Esta série é tão perturbadora, porque é muito atual, é nosso presente observado por uma lupa gigante, amplificando a influência da nossa reputação virtual em nosso comportamento e status social. Esse episódio, Nosedive/Perdedor, esfrega na nossa cara o quanto esse sistema é injusto e excludente, porque cultua uma postura narcisista, egocêntrica e individualista do ser humano, numa eterna “queda de braço” pela ostentação de bens materiais e influência moral, em que cada um tenta apenas salvar a própria pele e a própria imagem, num fluxo incessante de selfies, do esquecimento.

Mas esta é a sociedade da qual fazemos parte, e não temos como fugir disso, o que nos resta é procurar compreender as mudanças que a tecnologia e a web provocam nas relações interpessoais, nas relações dos seres humanos com a natureza e, principalmente, na relação do indivíduo consigo mesmo. Dessa forma, poderemos tentar agir com mais responsabilidade no uso das tecnologias e evitar que as coisas que a mente humana vem produzindo não causem nossa própria ruína, tal como as distopias vêm nos alertando.

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