Um Post, Um Personagem #05: Paola Bracho (A Usurpadora)

Paola Bracho

– No inferno sempre estarei melhor do que no céu. As pessoas boas são muito chatas.

–Sou uma mulher apaixonada, não posso viver sem amor.

Há muito tempo penso em fazer uma defesa de Paola Bracho. Sei que essa é uma das vilãs de novelas mexicanas mais queridas no Brasil e que parece bobagem defender uma personagem carismática e da qual muita gente gosta. Porém, Paola é querida, sobretudo, por seus bordões, o cinismo cômico, a risada maléfica da dubladora brasileira Sheila Dorfman dentre outras coisas.

Já vi A Usurpadora no mínimo três vezes na TV e uma vez pelo youtube. Estou revendo essa nova edição do SBT e todas as coisas boas sobre Paola me vêm à mente tod0s os dias quando paro de fazer qualquer coisa em minhas tardes, para ver a novela. Por que Paola Bracho é tão interessante? Infelizmente, eu não tenho muito conhecimento de vilãs mexicanas, mas das que conheço, nenhuma se compara à Paola. Explico. Uma das regras gerais em se tratando de vilões é que todos têm um objetivo (ou vários, mas um pelo menos eles têm). Alguns dos mais comuns são: apossar-se de uma grande fortuna que, invariavelmente, não é sua por direito ou que simplesmente não merece; conquistar alguém que ama (ou por quem nutre um sentimento obsessivo); destruir a vida de alguém que é alvo de inveja. É claro que há variações desses mesmos temas. Só o que não faltam são vilões verdadeiramente bandidos (praticam todo tipo de fraude e sempre dão um jeito de se livrarem da culpa, eventualmente incriminando um inocente) e quando ampliamos para outros gêneros como filmes, séries, animes, etc. bem como as temáticas (ação, fantasia, suspense, etc.) a variedade torna-se maior: vilões que querem dominar o mundo, que querem destruir o mundo, que querem matar alguém em específico, etc.

Mas e Paola Bracho? Qual o objetivo dela? Alguns podem responder que é se apossar do dinheiro dos Bracho. Outros que é reconquistar o amor de Carlos Daniel. Outros ainda que é praticar todo tipo de vilanias com sua irmã, Paulina. Ou tudo isso e mais: o objetivo de Paola é simplesmente fazer o mal. Mas não é tão simples assim. Vou fazer um resumo da trajetória de Paola. Porque a história de Paulina nós conhecemos bem. Entretanto, são poucas as informações que temos acerca de sua irmã.

Sabemos que Paola foi separada de Paulina ao nascimento e adotada por uma família (que pode ser rica ou de classe média, eu suspeito que o segundo caso seja mais provável. Paola tem todos os indícios de ser uma pessoa que ascendeu financeiramente) que é apenas mencionada na história. Ou seja, não chegamos a conhecer os pais ou irmãos (se tiver tido) dela. Quando conhecemos Paola, ela já é adulta e uma Bracho. Com Paulina ocorre de modo semelhante, mas conhecemos o passado de Paulina: sabemos que ela foi criada pela mãe, que não conheceu o pai (possivelmente as abandonou), que viveu com grandes privações, teve de parar os estudos para ajudar nas despesas de casa. De Paola não sabemos nada sobre seu passado. E sabemos: em um momento, é mencionado que ela, sob o nome falso de Noélia, teve um caso com Douglas Maldonado. Isso antes de se casar com Carlos Daniel Bracho. É engraçado isso, não? Porque se o interesse de Paola fosse dinheiro, teria sido bem mais vantajoso ter se casado com Maldonado, mais rico e sob muitos aspectos, mais obcecado por ela do que Carlos Daniel. Mas tudo o que ela queria era se divertir naquela época. E também na época em que a conhecemos, afinal, por que ela obriga Paulina a ocupar seu lugar na mansão dos Bracho? Porque achava o lugar e a família entediantes e queria se divertir. Vejam o seguinte diálogo entre Paulina e Paola:

– Você não está arrependida de tudo o que fez, Paola?

– Arrependida de quê? De ter fugido de uma casa chata e entediante? De duas crianças mimadas e encrenqueiras? De uma velha alcóolatra? De uma cunhada histérica?

Meus amigos, a chave de tudo está nessa resposta de Paola. Quantas e quantas mulheres não sonham em se ver livres de suas rotinas domésticas vazias? Mas notem que nessas perguntinhas, Paola questiona valores tradicionais rígidos como a posição da mulher na instituição familiar: cospe na maternidade (ainda que postiça, e suspeito que o fato de Carlinhos e Lizete não serem seus filhos legítimos não é mera coincidência, pois seria chocante demais para o público médio ouvir uma frase assim vinda de uma mãe que pariu) e está pouco se lixando para os problemas da família. Afinal, tradicionalmente, é à mulher que compete o trabalho duro na hora de resolver os problemas domésticos como, por exemplo, o alcoolismo da vovó Piedade. Paulina representa todos esses valores os quais Paola despreza. Afinal, o que Paulina faz quando chega à casa dos Bracho? Cura o alcoolismo da vovó Piedade, cuida das crianças, tenta ajudar Estephanie. A única coisa que ela não faz era a única que Paola fazia: ser amante de Carlos Daniel. Porque é isso o que Paola é: livre sexualmente. E o curioso é que, mesmo depois de casada com Carlos Daniel, não dá para ver Paulina como um ser sexual. Não nos mesmos moldes de Paola, pois sua sexualidade é mostrada por meio da fertilidade, não pela lascívia como acontece com sua irmã.

Paola e Paulina

Paola esnoba a religiosidade de Paulina e isso estabelece a diferença crucial que define a primeira como vilã e a segunda como a mocinha da história. Porque no México e na América do Sul de maneira geral, a religião é um aspecto cultural muito forte. Por não ter religião ou respeito pelos preceitos e ritos religiosos, Paola é alçada à vilã. A lógica é que uma pessoa assim não pode ser uma boa pessoa.

Carlos Daniel, um dos personagens mais machistas surgidos em novelas, trata de demarcar bem a posição de Paola quando a responsabiliza pelo estado (numa cadeira de rodas) no qual ela se encontra: “Por acaso não está aqui por sua própria culpa? Onde estava quando sofreu esse acidente horrível? Estava na sua casa? Estava ao lado do seu marido e dos seus filhos?” Ou seja, o lugar de uma mulher decente é ao lado do marido e dos filhos. Se ela não deixar essa posição estará livre dos males desse mundão. Mais importante: uma mulher que não cumpre com suas obrigações para com a família e com a sociedade é responsável por tudo de ruim que aconteça a ela. Castigo divino, ora.

Em todo caso, eu tenho comparado muito Paola à sua irmã. Mas penso que o extremo oposto de Paola não é Paulina. É Estephanie, beata, frustrada sexualmente, tensa em todos os sentidos. Ela é o perfeito contraste em relação à Paola que vive lindamente sua sexualidade, não se guia pela religião, veste-se de forma provocante, procura o prazer ao invés da penitência.

E no final, é disso que Paola está em busca: do prazer. É uma personagem hedonista. Ela não quer dinheiro como o ambicioso o quer. Ela quer o dinheiro pelos prazeres que ele traz. Seus amantes são belos e vigorosos e/ou ricos. Ela acerca-se apenas dos homens que podem lhe dar algum tipo de prazer: seja estético e/ou sexual, seja o conforto, a sensação de proteção e, claro, a diversão que o dinheiro proporciona. Apaixona-se pelos homens, mas não os ama. É uma situação bastante confortável. Acho que Paola Bracho é o que uma mulher sem as interdições de uma moralidade calcada na religiosidade cristã (que, por sua vez, é machista) seria.

Paola Rindo

É por isso que tantas mulheres se identificam com Paola, mesmo que brincando. É brincando que, muitas vezes, a gente manifesta os desejos. Assim como Paola dizia muitas verdades com suas frases de efeito. Afinal, pessoas boas são muito chatas mesmo.

Autor Convidado

Cássia Sousa é mestranda em Comunicação, contista, blogueira e grande amiga nossa aqui do Cooltural.
Blog | Skoob | Filmow

7 comments

  1. Bem, são textos como esse que me fazem sentir alheio, rs. Por exemplo, Ademar me tira de tempo todas as vezes que menciono nunca ter visto os filmes nem os livros do Harry Potter. A mesma sensação que tenho com relação a esse tipo de comentário, sinto com relação a novela “A Usurpadora”. Toda vez que ouço falar de vilãs de novelas, ela é um dos nomes (se não o único) citados. Pelo que você escreveu, nota-se que Paola Bracho é uma vilã diferenciada e que sua personalidade é muito bem construída…

    Cássia, adorei o seu texto. Você escreve muito bem!

    Detalhe: esse gif é ótimo, rs.

    Curtir

  2. Cara, você mitou!!! Incrível a sua análise! Eu diria perfeita! Paola é diva porque só quer diversão, prazer e não segue o padrão imposto pela sociedade. E essa sociedade patriarcal e religiosa condena isso! Amei!😘😍

    Curtir

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s