| Resenha | O Barco das Crianças, de Mario Vargas Llosa

O Barco das Crianças (detalhe)

Mario Vargas Llosa me encanta pelo choque que me causa. Em ambas as ocasiões em que me vi lendo algo dele, fui pego de assalto pela temática crua e pela sutileza da abordagem, fazendo com que eu ficasse ainda mais interessado por suas nuances como escritor. Outro ponto positivo que me surpreendeu foi a habilidade de Llosa em trabalhar bem para públicos distintos. Meu primeiro contato com ele foi através da novela erótica, Elogio da Madrasta, que cria um mosaico artístico entre literatura e pinturas para narrar a paixão de um adolescente (Alfonso) por sua madrasta (Lucrécia). Nosso segundo encontro se deu através deste infantojuvenil, O Barco das Crianças, que embora seja direcionado para um público mais jovem traz uma narrativa muito curiosa e uma temática forte, que transita entre os limites do real e do fantástico.

O Barco das Crianças é inspirado no conto A Cruzada das Crianças, de Marcel Schwob, publicado aqui no Brasil pela editora Hedra (confira aqui). O texto de Schwob, por sua vez, é baseado nas histórias acerca de dois grupos de crianças que saíram em cruzada para conquistar Jerusalém, no século XIII. Essas histórias se misturam com algumas fantasias criadas em torno desses acontecimentos. Além disso, muitos historiadores se debruçaram sobre estudos que objetivaram encontrar a verdade por trás dessas histórias. Algumas das explicações não são claras, alguns acreditam que a maior parte dos relatos se trata de fantasias que foram sendo passadas de geração para geração através da oralidade. Mas como não podia deixar de ser, o fato curioso acabou despertando o interesse dos literatos, dando origem às versões romanceadas desse episódio. A narrativa de Schwob, que inspirou Llosa a escrever este, é uma das mais conhecidas.

No livro de Llosa, acompanhamos o pequeno Fonchito, que todo dia de manhã observa um senhor idoso sentado num banco a observar o mar. Como a cena se repete diariamente, um certo dia, Fonchito, movido pela curiosidade, resolve abordar o senhor e perguntar por que ele está sempre ali a observar o mar como se esperasse alguma coisa. O velhinho fala para o menino que está esperando o barco das crianças aparecer. O menino fica intrigado, já que não vê barco nenhum, e o senhor explica: “Não vê porque não apareceu essa manhã, mas se aparecesse provavelmente também não o veria. Eu, ao contrário, vejo o barco como estou vendo você agora. […] Porque não são todas as pessoas que merecem vê-lo. Quando você o vê, é como se recebesse um prêmio por alguma coisa que fez. Um grande sacrifício, por exemplo” (p. 11).

Instigado pela curiosidade do menino, o velhinho propõe um acordo ao pequeno. Ele contará a história do barco e das crianças e caso não consiga terminar naquele dia, eles continuariam no dia seguinte. E assim segue, todo dia cedinho o menino vai encontrar o senhor idoso e ouve uma parte da história, até que o ônibus da escola chega e a história precisa ser interrompida, sempre em uma parte que deixa Fonchito ainda mais curioso sobre as crianças. Aos poucos, a narrativa vai tecendo o mistério e levando o leitor (junto com Fonchito) a velejar através da narrativa que mescla fatos históricos com elementos fantásticos e mitos antigos.

É uma história muito antiga. Começa no século XII, imagine. Há nada menos que nove séculos, lá na Europa. Naquela época, a religião tinha uma importância tão grande que, sem exagero, pode-se dizer que ocupava por inteiro a vida dos seres humanos. Homens e mulheres viviam em função de Deus, do Diabo, do pecado e da morte. (p.13)

É assim que o velhinho inicia sua história. Ele conta como grupos de crianças de diferentes partes da Europa (Alemanha, França e Itália) partiram para Jerusalém com o objetivo de conquistar a terra prometida, tomando-a dos mouros. As crianças percorreram várias cidades da Europa até que um grupo delas conseguiu um barco que os levasse até Jerusalém. A maioria das crianças morreu ou foi vendida como escravas. O grupo que saiu no barco nunca mais foi visto nem se teve notícias. Esse fato deixa Fonchito triste e curioso, pois aos poucos ele vai se envolvendo cada vez mais com a história e com o destino das crianças. O que chama a atenção do garoto, é que o velhinho narra a história sob um ponto de vista em primeira pessoa, como se ele fosse uma das crianças de nove séculos antes. Quando questionado, o velho só argumenta sobre a inexplicabilidade de muitas coisas do nosso mundo.

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Mario Vargas Llosa

O livro apresenta uma história curiosa, especialmente por se misturar com muitos fatos históricos, mas ao mesmo tempo é uma história triste e cruel. É interessante vê a honestidade de Llosa em tratar de um tema tão forte como a morte em um livro para crianças. Para Llosa, o público infantil é de extrema importância porque ele representa uma sociedade leitora futura, da mesma forma é um público para o qual devemos nos direcionar sem infantilizar a linguagem, nem tampouco negar certos temas que muitas vezes são negados. Não obstante, na narrativa de O Barco das Crianças tudo funciona perfeitamente, sem soar pesado demais e nem ofensivo, ao mesmo tempo que não se priva de mostrar como o mundo pode ser.

Uma coisa que me deixa curioso é a predileção do autor em usar quase sempre o mesmos nomes. Não pude deixar de notar que Fonchito é personagem de seus dois livros infantis, O Barco das CriançasFonchito e a Lua, assim como é o mesmo nome do adolescente de Elogio da Madastra Os Cadernos de Dom Rigoberto. Eu gostaria de acreditar que os meninos não sejam a mesma pessoa, dada a personalidade de cada um, apenas coincidência por ser um nome tão comum entre os latino-americanos.

A edição da Alfaguara está impecável, em capa dura, e com ilustrações incríveis de Zuzanna Celej (que ilustram também este post). É uma leitura rápida, triste e bonita. Vale muito a pena conferir.

Nota: 💚💚💚💚💛

Ficha Técnica

O Barco das Crianças
Clique para ampliar

Título: O Barco das Crianças
Título Original: El barco de los niños
Autor(a): Mario Vargas Llosa
Ilustrações: Zuzanna Celej
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
Editora: Alfaguara
Edição: 2016 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2014
Páginas: 112
Skoob: Adicione
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