O Guardião, de Daniel Polansky

O Guardião

Solucionar um mistério não tem a ver com encontrar pistas ou ter sorte com um suspeito, mas decidir o que procurar, estruturando a narrativa com a cabeça. Se você conseguir montar as perguntas que devem ser feitas, as respostas virão.
Daniel Polansky, O Guardião, pág. 232.

A sinopse deste livro certamente foi o que mais chamou minha atenção pare ele. Prometendo uma mistura de gêneros, referências e elementos, que a meu ver, não caberia muito bem numa mesma receita. O Guardião (Geração Editorial), de Daniel Polansky, é o primeiro de uma trilogia intitulada Cidade das Sombras. Publicado originalmente em 2011, chegou por aqui na metade do ano passado, mas não tem data prevista para o lançamento da sequência.

O primeiro ponto positivo do livro está no fato de que o Guardião, nosso protagonista e narrador, é um anti-herói que foge a todo custo daquela imagem de mocinho. Com um passado nada animador e um futuro incerto, ele toca sua vida como narcotraficante pelas ruelas suburbanas da Cidade Baixa. Defensor de um território comercial muito bem demarcado, o Guardião se ver apenas como um cara que nunca se deu muito bem na vida. Em outrora ele lutou na guerra por um patriotismo injustificado, depois integrou a Casa Negra, entidade responsável pela ordem e justiça, não obtendo êxito de confiança, mesmo sendo o melhor investigador da instituição.

No seu presente, além de traficante, o Guardião é também um viciado, que necessita religiosamente de suas doses diárias de Sopro de Fada e vinonífera. Mora em um quartinho logo no andar de cima do bar do seu amigo e parceiro de guerra, Adolphus. A rotina mecanizada do Guardião é perturbada quando duas coisas lhe acontecem: o envolvimento quase involuntário dele com a investigação de um estupro e assassinato brutal de uma garotinha; e o aparecimento de um garotinho, Garrincha, que aos poucos vai se tornando seu aprendiz.

Dito isso é interessante voltar a falar da estética usada por Daniel Polansky. O livro segue por uma via de mão dupla: se de um lado há todos os elementos típicos da fantasia, do outro temos a intricada trama de um thriller policial e no meio de ambos a um cabo de guerra que ora puxa para um lado e ora para o outro. Certamente o livro agradará fãs tanto da fantasia como do romance policial, mas em geral tende-se querer puxar mais para o seu lado de preferência.

Trilogia Low Twon, em Inglês
Trilogia Low Twon, em Inglês

Em entrevista, Polansky menciona o fato de suas referências estarem muito presente em sua obra, e isso é nítido. A composição dos personagens e do universo alternativo em que a história se passa vem de Tolkien e de George R. R. Martin, como exemplo está a adjetivação dos personagens: Yancey, o Rimador; Tancredo, o Lábio Leporino; Beaconfield, o Espada Sorridente; etc. A trama policial e a estética noir vem de nomes como Raymond Chandler e James Ellroy. O ritmo tenaz dos filmes de Tarantino. O cenário em que se passa a narrativa, embora seja atemporal e sem muita referência comparativa ao nosso mundo real, não há como não lembrar da Los Angeles mostrada por Ridley Scott em Blade Runner – O Caçador de Andróides.

Além dessas referências explícitas, é possível ainda associar elementos usados por Polansky com outros autores, que sem intenção de referenciar, também os utilizaram. No livro de Polansky a sociedade foi assolada e praticamente dizimada por uma peste (sim, é análoga a Peste Negra do século XIV). Tal fato já foi abordado numa infinidade de livros, mas menciono os recentes: O Fim de Todos Nós (Ed. Intrínseca), de Megan Crewe, e Na Companhia das Estrelas (Ed. Novo Conceito), de Peter Heller. O mundo de Polansky é permeado de magia, ou Arte como é chamada, e seres malignos que habitam o vazio, que me remeteu a algo parecido escrito por Lev Grossman em Os Magos (Ed. Amarilys) e por Garth Nix em sua série A Sétima Torre (Ed. Nova Fronteira).

Daniel Polansky
Daniel Polansky

Aos poucos, com o decorrer da leitura, vamos nos acostumando com as diversas raças, deuses, lugares e demais elementos que compõem o universo da Cidade das Sombras. Polansky consegue nos inserir em seu mundo sem apelar para as descrições intermináveis, que costumam atrasar a leitura e quebrar o clímax da narrativa, outro ponto para ele. Ao mesmo tempo em que não mede esforços para pintar um quadro sombrio de cores frias. Mesmo com feiticeiros, videntes e artefatos mágicos, o autor consegue construir um mistério que envolve assassinatos em série, detetives durões e organizações estatais corruptas, que mais se importam em apagar escândalos do que com o bem estar da população. No fim das contas, é uma fantasia bem análoga à nossa realidade.

O Guardião é o tipo de personagem que não precisa tomar partido entre o bem e o mal para cativar os leitores. Ele representa o ser humano dúbio, que não é nem bom nem mal, mas que pratica ações que se encaixam em uma ou outra classificação. Ao mesmo tempo em que ele sai por aí alimentando o vício de seres marginalizados, ele se importa com as crianças de rua que não possuem nem teto nem alimentação. Ao mesmo tempo em que usa da violência para demarcar seu território de tráfico, ele repreende seu pequeno aprendiz por roubar coisas das barraquinhas da feira. Ao mesmo tempo em que usufrui da corrupção governamental, ele ensina o garotinho a não mentir para os seus responsáveis.

Talvez o único ponto negativo do livro seja o pequeno descuido da editora, que deixou passar erros de digitação e tradução, em uma quantidade suficiente para ser notável. A dica é melhorar a revisão nos próximos lançamentos e reedições. Por fim, repito que é uma leitura que vale muito a pena e que merece atenção. Principalmente para quem curte os elementos que citei ao longo do texto.

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Ficha Técnica

O GuardiãoTítulo: O Guardião
Título original: Low Town
Série: Cidade das Sombras
Autor(a): Daniel Polansky
Editora: Geração Editorial
Tradução: Ricardo Gozzi
Edição: 2012 (2ª)
Ano da obra / Copyright: 2011
Páginas: 448
Baixe um Trecho: AQUI
Sinopse: Hoje, quando você sair à procura de Yancey, o Rimador, e tiver de abrir caminho em meio às prostitutas, aos valentões e aos viciados loucos por mais um dia de cheirada ou um trago, você irá se deparar com o corpo de uma criança. O cadáver exala um odor que não é dele, um cheiro que recende a magia e a um lugar, se Sakra quiser, para o qual você jamais irá querer voltar. Não fique tempo demais de bobeira perto do corpo; os gélidos vão querer saber o que você fez e o que há na sua bolsa. E quando eles te pegarem, é para a Casa Negra que você irá, onde o Comandante fará uma oferta que você não terá como recusar. Bem-vindo a um mundo como nenhum outro, com uma linguagem estranha e rica e uma violência tão sombria quanto o mais negro dos noires.

Onde comprar:
SubmarinoEstante Virtual | Saraiva | Cultura

4 comentários

    • Oi Matheus,
      O livro é bem bacana, principalmente para quem curte fantasia e thriller. É um mistura bem sucedida de gêneros bem diferentes.
      Eu adoro essa capa também, o segundo volume da trilogia deve sair ainda esse ano.

      Abraços

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  1. Se pela capa ele já chama a atenção,imagino no decorrer da história.O personagem me parece ser forte e destemido.E pelo que li na sua resenha promete ser um dos melhores livros que pretendo ler ainda esse ano.Amei sua dedicação a esse livro.Vou esperar ansiosa pelos outros.Beijos.

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    • Oi Elizabeth,
      O Guardião foi um dos livros mais interessantes que eu li esse ano, isso pela mistura de gêneros que ele possui. E também pelo elementos presentes na narrativa, o personagem principal é um anti-herói muito legal. Acho que você vai curtir sim.
      Eu também estou ansioso pela continuação.
      Beijos

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