| Resenha | Como morrem os pobres e outros ensaios, de George Orwell

Como morrem os pobres e outros ensaios (detalhe 02)

George Orwell é sem dúvida, um dos romancistas de língua inglesa mais interessantes e conhecidos que surgiram na primeira metade do século XX. Obras como A revolução dos Bichos e 1984, são até hoje reconhecidas pela sua inventividade e relevância. É uma pena, portanto, que boa parte dos seus escritos sejam pouco conhecidos pelos leitores de língua portuguesa. Além de romancista, Orwell era também um excelente ensaísta, o qual poderia produzir textos inspirados sobre qualquer coisa. Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios é principalmente uma amostra de como o autor enxergava e interagia com o mundo.

Dividido em seis partes, o livro traz quase 30 ensaios agrupados em temas variados que de alguma forma eram caros ao autor. Assim temos ensaios autobiográficos, onde Orwell cria um diário dos dias em que viveu nas ruas, nos quais há reflexões sobre a natureza da pobreza e as dificuldades que a maior parte da população inglesa viveu nos tempos de guerra. A infância também é retratada em um longo texto no qual o autor relembra os dias em uma escola de elite, em Londres. Há ainda ensaios sobre a língua inglesa, política, culinária, vestuário e outros assuntos que quase não têm nada em comum, a não ser o brilhantismo com que Orwell os analisa.

Lembrado quase sempre pelas previsões que fez acerca da sociedade do final do século XX e que então se provariam, boa parte delas, acertadas, o autor mostra em seus ensaios que é acima de tudo, um homem do seu tempo. A obsessão pela honestidade intelectual permitiu a Orwell desenvolver análises precisas da política e sociedade tanto na Inglaterra quanto no resto da Europa. Isso em plena Segunda Guerra Mundial, quando teorias nacionalistas e comunistas exigiam cada vez mais um comprometimento ideológico. Se acertava em suas previsões é porque tinha uma visão privilegiada dos acontecimentos de sua época.

Como morrem os pobres e outros ensaios (detalhe 01)

A sinceridade de suas ideias era provavelmente o seu maior atributo. A segunda parte do livro intitulada A insinceridade é inimiga da linguagem clara, traz alguns dos ensaios mais importantes da sua carreira e que envolvem a verdadeira paixão que Orwell tinha pela língua inglesa. Aqui é possível perceber a repulsa que o autor nutria por parte dos intelectuais ingleses e principalmente pela crítica literária da época. É importante ressaltar que Orwell viveu um período difícil para os romancistas quando a produção de romance era relegada a segundo plano enquanto ensaios e obras políticas eram vistos como detentores do verdadeiro valor literário. Mesmo assim o autor defendia o romance como forma genuína de arte se destacando na sua produção.

Mas não foi só na defesa do romance que Orwell contribuiu para a língua inglesa. Seu maior legado foi certamente a defesa de uma linguagem clara. Para Orwell, a decadência do pensamento era facilmente refletida na forma da escrita, quanto mais rebuscado e de difícil entendimento fosse um texto, maior a probabilidade de ele esconder ideias falhas e moralmente perigosas. Assim, em um dado momento o autor disseca o texto de um conhecido intelectual da época, mostrando que não há absolutamente nenhuma ideia sólida por trás daquelas palavras. Em outro, Orwell demonstra como é fácil (fácil para ele, claro) defender atrocidades como os assassinatos compulsórios cometidos pelo regime soviético, escondendo essas ideias através de uma falsa preocupação com questões sociais. Para ele, quanto mais clara e universal for a escrita mais fácil será testar se aquilo que ela retrata é verdadeiro ou falso.

George Orwell
George Orwell

Orwell sempre foi um opositor de regimes totalitários. Mesmo sendo um socialista convicto, reconhecia a importância das liberdades de opinião e imprensa e valorizava essas liberdades acima dos supostos ganhos sociais que poderiam resultar da sua supressão. Daí a dificuldade de publicar obras como A Revolução dos Bichos. Enquanto a esquerda Europeia evitava falar de problemas na União Soviética, Orwell escrevia livros inteiros com críticas a revolução e ao totalitarismo.

O ensaio A Liberdade de Imprensa, que foi também o prefácio de A Revolução dos Bichos, conta as dificuldade de se publicar material antissoviético na Inglaterra, principalmente depois dos Soviéticos terem aderido à guerra ao lado dos aliados. Esse talvez seja um dos momentos mais relevantes da obra, já que não é preciso muito esforço para perceber que a esquerda atual compartilha tristes semelhanças com a esquerda do tempo de Orwell. Quando o autor lembra, por exemplo, do silêncio dos jornais de esquerda frente à epidemia de fome que assolava a Ucrânia é difícil não lembrar de casos atuais como quando publicações brasileiras de esquerda comemoraram os ataques da PM a manifestantes em junho de 2013. Orwell destaca que os direitos humanos (incluindo aí as liberdades de expressão e manifestação) são pautas recorrentes na esquerda, mas que são frequentemente esquecidos quando convém.

É interessante, aliás, perceber como apesar de se identificar como socialista democrático Orwell geralmente direciona suas críticas à esquerda, principalmente a Stalinista, mas não apenas a ela. Isso acontece primeiro porque o escritor tende a desconsiderar de cara os argumentos com viés de direita nacionalista, em segundo porque há uma clara reprovação da visão stalinista de estado, que o autor costuma contrapor embora não exponha de forma clara, a uma visão trotskista. Não seria exagero afirmar, portanto, que Orwell reconhece os maus argumentos e a condescendência com a violência e as violações dos direitos humanos como o principal inimigo dos ideais socialistas. Essa é a chave para o entendimento das ideias do autor com relação as liberdades individuais e de imprensa. Para Orwell, contrapor ideias boas e ruins é mais importante que contrapor ideias de esquerda e direita.

Detalhe da capa pela editora Penguin
Detalhe da capa pela editora Penguin

Mas essa não é uma obra que trata apenas de temas sérios, e parte do seu charme consiste justamente na capacidade do autor de escrever com a mesma desenvoltura sobre as censuras soviéticas à historia de Trotsky ou à melhor forma de preparar um típico chá inglês. A gama de interesses do escritor é enorme e talvez por ter tanta curiosidade por temas tão variados que Orwell tenha desenvolvido o poder de enxergar tão longe.

No fim, Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios é acima de tudo sobre o humano George Orwell, como uma tapeçaria que aos poucos vai tomando forma e que nunca pode ser definida apenas por uma linha ou um grupo delas. Se esse texto focou principalmente em questões políticas é porque esses são assuntos que mais me atraem, um outro leitor pode preferir os ensaios autobiográficos ou aqueles que tratam de assuntos mais prosaicos e que também são muitos bons. Vale lembrar que esse é apenas um pequeno recorte dos textos de Orwell, a Companhia das Letras tem pelo menos mais um volume de ensaios publicado, o Dentro da Baleia de 2005.

Autor Convidado

Naum Celestino  é estudante de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo na Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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Ficha Técnica

Como morrem os pobres e outros ensaios
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Título: Como morrem os pobres e outros ensaios
Título Original: Essays
Autor(a): George Orwell
Editora: Companhia das Letras
Tradução: Pedro Maia Soares
Edição: 2011 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 1952
Páginas: 416
Skoob: Adicione
Leia um trecho: AQUI
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3 comments

  1. Bom texto. No entanto, não entendi essa parte de “publicações brasileiras de esquerda comemoraram os ataques da PM a manifestantes em junho de 2013”. Ate onde eu sei, são poucas – pouquíssimas, na verdade, raras mesmo – as publicações de esquerda que atingem a massa no Brasil e, tenho certeza, nenhuma delas foi condescendente com a violência policial. Muito pelo contrário, uma das pautas da esquerda no brasil é a desmilitarização da polícia militar e, num campo mais radical, sua dissolução. É bom tomar mais cuidado na hora de falar sobre essa questão de direita e esquerda nos meios de comunicação locais, quando a gente sabe que a mídia hegemônica no país, controlada por 9 famílias, é conservadora e eterniza opressões. Seu conservadorismo, aliás, está ligado ao fato de serem ideologicamente de direita, posto a realidade dos barões midiáticos e as disputas de classe que vivemos. Exceto que você esteja sugerindo, é claro, que a Carta Capital, revista declaradamente de esquerda e uma das únicas com grande penetração no mercado, apoiou a violência policial nesse episódio… De qualquer forma, acho bom se informar mais a respeito antes de externar coisas como essa. De todo, resenha legal!

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    • Ola Pedro, fico feliz que tenha gostado do texto. De fato, não me referia a Carta Capital quando falei de publicações de esquerda comemorando a truculência policial contra manifestantes, aliás a carta tem até um bom documentário sobre os eventos de junho de 2013. As tentativas de desqualificar manifestações vieram principalmente de sites menores mas também alinhados a esquerda como o 247, PHA e Nassif. Não vai ser difícil encontrar nesses sites, textos se referindo a manifestantes como fascistas e infiltrados( o 247, por exemplo tentava ligar lideres das manifestações ao PCC). De todo modo, acho um pouco ingênuo acreditar que essas publicações se pautam exclusivamente pelas agendas da esquerda. Se você der uma volta nos sites citados aqui, incluído ai o da carta, vai ver gente defendendo medidas de austeridade, cortes no direito trabalhista e até grandes empreiteiros, só pra dar um exemplo.

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  2. Desde que li 1984 tenho um interesse imenso por tudo o que diz respeito a George Orwell, e ainda pretendo ler seus outros livros (estou para ler A Revolução dos Bichos há um tempão, vamos ver se consigo em breve). Sabe que eu não sabia muita coisa a respeito de Como morrem os pobres… e gostei de tudo o que li nesta resenha. Aliás, fiquei realmente curiosa pela variedade de temas que aparecem nos ensaios, desde os mais mundanos aos mais tensos, digamos assim. É um livro que colocarei na listinha para futuras leituras, com certeza. =)

    Beijos, Livro Lab

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