É mais freqüente que os novos leitores (principalmente os jovens) busquem autores recentes, que estão fazendo certo sucesso mundial com best-sellers, que na maioria das vezes não passam de produtos comerciais. Mas destaco aqui a importância de se conhecer autores que de certa forma são considerados clássicos, seja ele nacional ou não. José Mauro de Vasconcelos é uma boa pedida para quem gosta de dramas intensos e juvenis. Em seu conhecidíssimo O Meu Pé de Laranja Lima, Mauro nos remete a uma história singela e emocionante que é tão fácil de ler quanto difícil de esquecer.
No início do livro somos apresentados a Zezé um garoto simpático e danado, que vive com sua família de tão pouca condição financeira. O menino de apenas cinco anos vive inserido em um ambiente familiar tenso, típico e de certo modo totalmente verossímil. Não sendo o filho único suas emoções são intensificadas pelos problemas familiares: o pai desempregado, a mãe com um emprego de baixa remuneração (é quem trás a comida pra casa) e cinco filhos pra alimentar (incluindo Zezé). Zezé sofre com tudo isso, sonha em ser rico, é obrigado a trabalhar como engraxate caso queira algum centavo e ainda leva uma (ou mais) surra diária, por suas danações e às vezes por puro estresse dos pais. Isso o deixa indignado e o faz buscar um refúgio externo, e quando a família é obrigada a se mudar, ele encontra na nova casa um pé de Laranja Lima.
Zezé é um menino fantasioso, que busca se refugiar da triste realidade imaginando um mundo mágico assim como Dom Quixote fazia. O galinheiro vira jardim zoológico, o pomar vira a floresta amazônica e assim vai. Os animais e plantas passam a ser seus amigos, como o morcego e o mais precioso de todos os amigos, o pé de Laranja Lima. Minguinho é o nome de sua preciosa árvore, com quem dialoga e narra suas aventuras. Mas é em meio a tantas surras e decepções que Zezé conhece o Portuga, que com o tempo se revela seu melhor amigo e, porque não dizer, seu verdadeiro pai, amoroso, atencioso e prestativo. O que chama atenção nessa obra de José Mauro é dramaticidade. O fato de conter fantasia nos remete a sensação de felicidade, mas o livro é bastante triste e pode até arrancar muitas lágrimas dos mais sentimentais.
O livro foi escrito em 1968, e de lá para cá já ganhou várias adaptações que incluem peça de teatro, um filme (de 1970 dirigido por Aurélio Teixeira), três telenovelas, a primeira em 1970, exibida pela Rede Tupi, a segunda em 1980 e a mais recente de 1998 pela Rede Bandeirantes, e até quadrinhos (na Coréia, em 2003). Foi também traduzido para 32 línguas e publicado em 19 países. Além desse livro maravilhoso, José Mauro escreveu outros excelentes, entre eles pode-se citar Vamos Aquecer o Sol.
O livro tem um caráter psicológico muito valioso onde nos faz refletir a situação de famílias que atualmente ainda passam pelos mesmos dilemas da família de Zezé. É possível identificar elementos regionalistas e até mesmo práticas culturais, que quem possui mais de vinte anos facilmente se identificará por ter participado de algumas delas. Apesar de toda a fantasia que permeia a mente do protagonista, a realidade que ele vive é tão real como a minha e a sua vida, a explicação para tal verossimilhança é que o autor usou de suas memórias de criança para traça a personalidade de Zezé e com isso sua triste história.
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O Meu Pé de Laranja Lima – José Mauro de Vasconcelos
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